Um ataque súbito de ciúmes num momento em que estava fortemente alcoolizado foi o motivo que levou Eurico Madeira a disparar a matar sobre a sua ex-companheira e o próprio enteado num café em Cabeça Gorda, Rio Maior. Foi esta a versão que o arguido, de 58 anos, contou na segunda-feira, 16 de Janeiro, ao colectivo de juízes do tribunal de Rio Maior que o começou a julgar pela prática de dois homicídios na forma tentada e mais cinco crimes: violência doméstica, ameaça, ofensa à integridade física, detenção de arma proibida e uso de arma sob efeito de álcool.

Contudo, o homem, que optou por prestar declarações nesta primeira audiência, negou sempre ter premeditado o crime, ao contrário do que sustenta a acusação. Segundo o Ministério Público (MP), Eurico Madeira escondeu a caçadeira alguns dias antes do crime nuns arbustos perto do café Cantinho dos Artistas, onde ocorreram os disparos. O arguido disse ter saído de casa com a arma “dentro de uma saca de serapilheira” no próprio dia, tendo-a montado e escondido na vegetação enquanto esperava pela chegada da mulher.

Os factos remontam a 13 de Maio de 2011, quando Eurico se dirigiu ao Cantinho dos Artistas, na aldeia da Cabeça Gorda, ameaçando de morte Florinda Azenha, a mulher com quem viveu durante 24 anos, caso a apanhasse em público com o seu novo companheiro. A vítima vinha a chegar de carro com o seu filho Rodrigo, enteado do autor do crime, que tentou interceder a favor da mãe. O arguido afastou-se na direcção do sítio onde tinha escondido a arma e Rodrigo seguiu-o. “Já só ouvi o tiro e vi o meu filho a correr cheio de sangue na barriga”, relatou Florinda Azenha, que também foi ouvida pelo colectivo.

Ajudado por populares, Rodrigo acabou por esconder-se dentro do café, já trancado à chave. No exterior permanecia Eurico, com a caçadeira na mão. Entre 10 a 15 minutos depois, através de uma janela da porta, o homem vê Florinda no interior e dispara o segundo tiro, que a atingiu na zona da cabeça e do pescoço. O disparo apanhou ainda de raspão uma menina de 11 anos, que se encontrava no café. As vítimas escaparam por pouco à morte.

Minutos depois, o arguido acabou por se entregar a uma patrulha da GNR de Rio Maior. Segundo se apurou após a detenção, tinha uma taxa de álcool no sangue de 2,18 g/l, facto que não negou em tribunal, onde os problemas do homem com a bebida foram amplamente debatidos. Os problemas com a dependência e o facto “de ter pouca vontade de trabalhar” foram as razões que levaram Florinda, trabalhadora fabril, a deixá-lo, segundo o relato da própria nesta audiência. Como Eurico não tinha emprego e só arranjava uns biscates esporádicos, era a mulher quem suportava todas as despesas da casa até ao dia 10 de Junho de 2010, data em que foi viver para casa do filho.

Além de ter confessado que nunca aceitou bem a separação, o homem é reincidente. Há 28 anos atrás, Eurico Madeira cumpriu 5 meses e 17 dias de prisão por um crime de tentativa de homicídio, precisamente porque disparou sobre uma ex-namorada que tinha posto fim à relação.