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Vítor Hugo Catulo

vitor catulo newQuando era ministro da Justiça, empossado em 1990, o Doutor Laborinho Lúcio disse um dia uma frase que gostaria de citar a abrir a crónica de hoje. Falava-se numa trapalhada qualquer, daquelas a qua a nossa classe política nos habituou há muito, e que envolvia, se a memória não me falha, um membro do governo.

Disse o então ministro, insigne juiz, mais ou menos assim: "se apenas eu sei que tenho um buraco na meia e ninguém mais sabe está tudo bem, mas se outros souberem é um escândalo". Assertiva comparação feita para o caso político em discussão na altura e com plena aplicabilidade nas mais variadíssimas situações da vida em sociedade.

As práticas ardilosas por parte de um número indeterminado (por enquanto) de deputados da Assembleia da República que estão simultaneamente em lugares diferentes enquanto embolsam indevidamente dinheiros públicos não mereceram nunca muita atenção enquanto não se soube pelos jornais.

As declarações de falsas moradas em outras regiões do País, quando se vive em Lisboa, para receber indevidamente o suplemento de residência não levantaram problemas de maior enquanto alguém não as denunciou publicamente.

A prática instalada de os deputados das ilhas receberem ilegalmente duas vezes os subsídios de viagem não passou de rotineiro procedimento administrativo de emitir as discretas folhas de pagamento e fazer as habituais transferências de numerário enquanto mais ninguém soube de nada se não o interessado que o recebeu e quem processou.

O "mal" é quando estas irregularidades, que na minha opinião configuram crimes e quebram a tal "relação sagrada" a que alguém se referiu, que deve existir entre o deputado e de quem o elegeu, são do domínio público.

Segredos até então guardados a sete chaves no recato dos gabinetes transbordam para fora e transformam-se em escândalos. Os buracos nas meias deixaram de ser só do conhecimento de quem as usa e passaram a ser do domínio público!

Como se não bastasse, a este corolário de más e vergonhosas condutas, juntam-se agora as conclusões ao relatório do Tribunal de Contas a denunciar despesas feitas por deputados sem as competentes faturas, a celebração de um seguro de saúde à margem da lei, pago por dinheiros públicos e a existência de um gabinete médico e de enfermagem no parlamento, mantido também a expensas nossas, quando é certo e sabido que o "pessoal da casa" está abrangido todo ele pelo subsistema de saúde do Estado, ADSE.

Um acumular de irregularidades escandalosas a que é preciso por cobro e punir os culpados com mão pesada!

Há dias o Presidente da República disse que os órgãos de comunicação social estão em crise. Acredito, são sinais dos tempos aos quais no seu próprio tempo os jornalistas, e só eles, darão resposta sem comprometer a sua independência e imparcialidade no dever de informar o público.

Entretanto há que se reconhecer a existência de jornalistas bem atentos, insubmissos e genuínos num claro exemplo do que é uma imprensa livre, vibrante e diversificada para todos os gostos. Há quem não reconheça nenhum mérito nestes detetores de buracos nas meias, mas eles cumprem o papel que lhes é reservado, e que escolheram, em Democracia: informar. Só nas ditaduras é que tudo está bem e não há escândalos: os buracos nas meias são guardados à matraca, muitas vezes à bala, e a população só conhece aquilo que o iluminado quer e manda.

 

Simulacro da Proteção Civil no Entroncamento - Fotos: José Neves