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Santana-Maia Leonardo

Santana Maia LeonardoA UEFA publicou em 2015 três estudos essenciais para compreender a realidade do futebol português:

  1. média de assistências aos jogos por país;
  2. distribuição das receitas televisivas por país;
  3. percentagem de adeptos por clube por país

Sem conhecer o doente e a doença, não vale a pena avançar ou sugerir tratamentos.

O futebol português é, aliás, o espelho da sociedade portuguesa. Basta olhar à nossa volta, quer para os clubes, quer para os partidos, quer para as empresas, quer para o sector financeiro, quer para as associações de solidariedade social, quer para as associações de bombeiros, quer para a comunicação social, para constatar, até pelo cheiro, que o nosso país está em adiantado estado de decomposição onde apenas os vermes conseguem sobreviver. E é muito difícil salvar o doente quando o doente já morreu... Esperemos que não seja esse o caso, o que, sem querer ser demasiado pessimista, duvido muito.

Analisando esses três estudos, constatamos que Portugal é o único país da UE onde não existe centralização dos direitos televisivos e o país da UEFA onde o fosso entre clubes ricos e pobres é maior, na distribuição das receitas. Na liga inglesa, por exemplo, o Manchester United, o clube mais valioso do mundo à frente de Barça e Real Madrid, recebeu apenas uma vez e meia a mais do que o último classificado.

Quanto à média de espectadores por jogo, a liga portuguesa tem uma média de espectadores inferior à II Liga inglesa e à II Liga alemã, apesar de a média dos jogos na Luz, Alvalade e Dragão estar próximo da média das ligas com mais espectadores.

Agora passemos à análise da relação entre adeptos e clubes por país. A percentagem de adeptos ingleses do Manchester United, o maior clube inglês e o clube mais valioso do mundo, é de 14%, encontrando-se a maioria concentrada na região de Manchester. É mais ou menos o que sucede em toda a Europa. Mesmo em Espanha, o Real e o Barça juntos têm apenas 33% dos adeptos espanhóis e concentrados em redor das respectivas cidades.

E em Portugal como é? Só o Benfica tem 47% dos adeptos e o Sporting e Porto os outros 47%. Com a agravante de a massa adepta do Benfica e do Sporting estar distribuída por todo o território nacional. Isto significa que é impossível realizar uma competição limpa em Portugal porque não é possível sequer encontrar clubes que não estejam infiltrados por adeptos, sobretudo, do Benfica e do Sporting. E sem clubes e decisores independentes (Conselhos de Arbitragem, de Disciplina, de Justiça, árbitros, delegados e observadores) não é possível realizar uma competição limpa.

Portugal é um caso único no mundo em que não é necessário haver corrupção porque a competição (à semelhança do que acontece nos concursos públicos nas câmaras e no país) está corrompida à nascença. Isso resulta claramente da leitura dos e-mails do Benfica e, se repararem, da própria defesa do advogado do Benfica. Para haver corrupção, é necessário haver estruturas independentes. Ora, em Portugal, estamos numa fase anterior onde não é necessário haver sequer corrupção porque os decisores são colocados pelos clubes-monopólio e agem ao seu serviço, tal como acontece nos concursos públicos em que o júri é escolhido pelo partido que governa.

 

Coruche: Partida Sahara Desert Challenge | Fotos: João Dinis