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Santana-Maia Leonardo

Santana Maia LeonardoCom o advento dos fundos comunitários, os sucessivos governos, em vez de terem aproveitado para cumprir a Constituição adoptando convictamente o modelo de desenvolvimento holandês das cidades médias, optaram por aprofundar o modelo grego da Cidade-Estado, reduzindo o país a Lisboa que passou a ser uma das regiões mais ricas da Europa à conta dos fundos que recebia pela pobreza do resto do país.

Com a chegada da troika, Passos Coelho teve a última oportunidade de inverter a situação, mas optou (não lhe perdoo!) por torná-la irreversível, acelerando o esvaziamento do território e retirando às populações mais envelhecidas, mais pobres e mais esquecidas do interior do país o pouco apoio do Estado que lhes restava: tribunais, escolas, serviços de finanças, correios, guardas-florestais, etc.

O interior do país ficou definitivamente entregue à sua sorte. A natureza passou a fazer tudo: o fogo limpa as matas e a chuva apaga os fogos. A maior reforma da floresta acaba de ser feita pelo fogo. Durante os próximos dez anos, o senhor Presidente da República não vai precisar de andar de velório em velório pelo interior do país por causa dos fogos. Sendo certo que, se, no final do seu segundo mandato, voltar aos mesmos locais, a maior parte das pessoas que agora abraçou e que sobreviveram ao fogo, já não as vai encontrar.

Portugal é, hoje, habitado a leste da A1 e nos meios rurais maioritariamente por reformados que apenas conseguem sobreviver com pequenas reformas, porque fazem uma agricultura de subsistência e vendem, de vez em quando, meia-dúzia de eucaliptos e pinheiros. As nossas terras são pobres e não dão para mais. Em muito sítios, se não for o eucalipto ou o pinheiro, a terra não serve para mais nada. E pedir a esta gente que limpe as matas e que faça aceiros é pedir o impossível: se fizerem aceiros, ficam sem terra; se limparem o mato, ficam sem a reforma.  

Só há uma reforma florestal que vale a pena levar a cabo em Portugal: a transplantação para interior do país de gente jovem, sobretudo jovens quadros qualificados, porque são essas as únicas árvores com futuro e que dão frutos, e que, consequentemente, são capazes de prevenir e responder adequadamente a tragédias com estas. E neste momento, só há duas formas de a levar a cabo: ou fazer o tempo andar para trás até 1985 e fazer tudo diferente a partir daí, hipótese que não antevejo muito viável, apesar dos avanços da ciência; ou, ainda que mantendo a capital formalmente em Lisboa, distribuir pelas cidades do interior do território, designadamente, Beja, Portalegre, Castelo Branco, Guarda, Viseu e Bragança, os ministérios, as direcções-gerais, os Estados-Maiores do Exército e da Força Aérea, os tribunais superiores, o Tribunal Constitucional, a Presidência da República e as universidades públicas sediadas em Lisboa.

Não vale a pena puxar pela cabeça porque não há um terceira via. Ou melhor, a terceira via é aquela em que os governantes e os políticos deste país já estão a trabalhar com o único intuito de aproveitarem a nossa desgraça para enriquecerem mais um vez.

 

Futebol: Jogo Coruchense x Mondenense | Fotos: João Dinis