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Santana-Maia Leonardo

Santana Maia LeonardoNos anos 60/70, os alunos passavam na escola 19 a 26 horas por semana, repartidas por seis disciplinas no secundário e nove no básico; hoje passam 40 horas (pelo menos), repartidas por uma chusma de disciplinas e de actividades a que se perde o conto. Ora, uma carga horária com este peso pressupõe, obrigatoriamente, a proibição absoluta de qualquer aluno dali sair com algum trabalho de casa para fazer.

Se um director de um serviço não pode obrigar os funcionários públicos a levarem todos os dias trabalho para casa, depois de um dia inteiro de trabalho, com que direito se sobrecarregam crianças e jovens com trabalhos de casa depois de terem passado na escola mais tempo do que os funcionários públicos passam nas repartições?   

E, já agora, por que razão os professores, tendo um horário de 35 horas, apenas leccionam 16 a 22 horas lectivas? Porque precisam de preparar as aulas, corrigir testes, fazer reuniões, etc. etc. Basta aplicar aos alunos o mesmo critério. Uma escola a tempo inteiro pressupõe que todo o trabalho tem de ser realizado na escola; um horário lectivo idêntico ao dos professores pressupõe trabalhos de casa.

Sendo hoje a escola a tempo inteiro, os trabalhos de casa configuram manifestamente um crime de maus tratos a menores muito mais violento, traumático e doloroso do que uma estalada, uma reguada ou uma sova. Crime esse que é infligido reiteradamente e com requintes de malvadez todos os dias nas nossas escolas. No entanto, se o professor der uma estalada num aluno, cai-se lá a polícia, o tribunal e a CPCJ, enquanto se matar o aluno com trabalhos para casa, recebe o aplauso desta geração de idiotas (de que eu infelizmente faço parte) que apenas valoriza o anedótico porque nunca aprendeu o essencial.

II

Sempre que ouvem falar em reformas estruturais, seja o Presidente da República, o Governo, a oposição, as corporações ou o Dr. Medina Carreira, os alentejanos tremem que nem varas verdes. E querem saber porquê?

Imagine uma corrida entre um burro e um carro de Fórmula 1, não nas ruas de Lisboa, onde os burros sempre tiveram vantagem, basta olhar para as nossas elites, mas numa pista de alta velocidade. Quem acha que ganhava a corrida?

Qualquer alentejano conhece a resposta correcta: depende do condutor. Sendo certo que os portugueses, na sua maioria, conseguiam chegar ao fim montados no burro mas não conseguiam sequer arrancar com o carro de Fórmula 1. 

Ora, as nossas repartições públicas, tribunais, escolas, empresas, etc. estão cheias de gente que só tem formação e capacidade para andar de burro. Se queremos empresas competitivas, uma justiça célere e justa, serviços públicos eficientes, uma escola competente e exigente e partidos que não promovam nem premeiem o chico-espertismo, ou seja, se queremos dotar a sociedade portuguesa de verdadeiros "Fórmula 1" para competir ao mais alto nível, comecemos, então, pela selecção e pela formação dos condutores, antes de lhe pormos o carro nas mãos.

 

Desert Challenge 2017