app chamuscabanner festas coruche

Nuno Antão

nuno antao oculos“Os números demonstram que o eventual desemprego motivado pela abolição da tauromaquia tem um carácter absolutamente residual”.

Justifica assim o senhor do pan a vontade de abolir as corridas de touros.

Ciclicamente a vontade regressa e o desejo de impor a todos uma vidinha muito clean e cool ganha forma, desta vez como projecto de lei entregue na Assembleia da República.

Com uma simplificação própria dos radicais num só artigo (“O presente diploma determina a abolição de corridas de touros em Portugal”), varrem do quotidiano da vida de milhares de pessoas uma atividade económica, a preservação de uma espécie, a protecção do ambiente, a manutenção de uma identidade, a historia de um povo.

Dizem-nos que o desemprego será residual, talvez pudessem pois apresentar no projeto de abolição, por exemplo, um programa de requalificação dos profissionais do sector, talvez conseguissem assim fazer-nos perceber que têm igual bondade com o ser humano.

Referem ainda que há “uma manifesta desproporcionalidade entre os benefícios que geram e os prejuízos que deles resultam”.

Bem sei que temos de ser tolerantes com os intolerantes, mas, tentando ser, não posso deixar de olhar em volta de Salvaterra de Magos e ver na Moita, Montijo, Alcochete, Benavente, Vila Franca, Azambuja, Cartaxo, Santarém, Chamusca, Almeirim, Coruche e Benavente, onde se realizam dezenas e dezenas de touradas por ano, centenas de largadas de touros, onde restaurantes se enchem, onde se vendem milhões de litros de cerveja e vinho, toneladas de bifanas, tripa e bucho, caracóis e torresmos, onde as pessoas relaxam, convivem e divertem-se olhos nos olhos e não numa qualquer rede social virtual.

Residual dizem eles… desproporcional afirmam eles!

Pode alguém que foi eleito com 22.628 votos referir uma qualquer desproporcionalidade quando quer acabar com uma atividade que deste que ele foi eleito já teve mais de meio milhão de espectadores?

Podem alguém eleito com 1,96% dos votos do círculo eleitoral de Lisboa caracterizar como residual o fim de atividade de ganadeiros, cavaleiros, matadores, bandarilheiros, criadores e tratadores de cavalos, emboladores e mais quem faz os trajes, o calçado, as farpas, os cartazes e as suas respetivas famílias?

Poder pode, mas não devia!

Há, como é obvio, uma necessidade de modernizar a atividade para preservar o património material, e em especial o imaterial, há que minimizar a sensação que o animal sofre, com técnicas já conhecidas e testadas.

Temos de rentabilizar as praças de toiros como espaços multiusos em territórios onde as infraestruturas não abundam, há que aproveitar o potencial turístico da atividade, que tem nas corridas de touros apenas o final de linha e onde apenas uma pequena parte dos intervenientes (humanos e animais) chega.

Gente que não respeita, que nos trata como selvagens… devia merecer tratamento igual, mas isso seria desproporcional, afinal de contas é residual o que representam!

Eu que sou um aficionado de meia tigela, trato esta questão como um ataque à nossa história e a toda uma cultura milenar.

São milhões de euros, milhares de pessoas, dezenas de atividades envolvidas, mas é especialmente uma identidade que se quer matar, e isso ninguém tem o direito de o fazer.

 

Partida em Coruche do Grande Prémio de Ciclismo Abimota - Fotos: João Dinis