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Nuno Antão

nuno antao oculosEm semana de final de ano é tempo de fazer balanços por excelência, todos nós o fazemos, infelizmente quase todos com a mesma linha de abordagem, dos sucessos económicos aos desportivos e culturais, passando pelas comemorações do centenário de Fátima e as inestimáveis e trágicas ocorrências de junho e outubro; dos resultados eleitorais às percentagens de desemprego, pib, exportações e défice passando pelas cativações, email’s, tetras tretas e mais uns quantos lugares comuns em que por preguiça e paz de espírito, na maior parte dos casos, insistimos em não sair.

Teremos sempre oportunidade de recordar Soares na vida mas na morte e para memória futura, fez-se o primeiro funeral com honras de estado; o Zé Pedro permanecerá o pai do rock português; foi e é o tempo de elogiar Guterres, Centeno, Costa e Marcelo; de nutrir sentimentos por Salvador Sobral e Cristiano Ronaldo; de vibrar com o tetra do Benfica e de perceber a importância do fóssil humano mais antigo já encontrado em Portugal (com 400 mil anos e descoberto em Torres Novas); de destacar bombeiros, jornalistas, juízes, as Brito e Costa’s deste país e os Trump’s deste mundo. 2017 foi ano de exageros e teve tanto de saboroso como de angústia. Todos sorrimos com os sucessos da pátria e todos, sem excepção nos sentimos impotentes com a morte e destruição num ano excepcionalmente intenso e penoso.

As figuras do ano são gente que sai do anonimato, como o Frederico que dá tudo pelo síndrome de Asperger e não é louco, freak ou estranho e que diz que é “um menino como outro qualquer, com sonhos e ilusões. Só quero que me conheçam e me ajudem a encaixar na sociedade”, gente como a Anna que se recusa a vestir a abaya e de andar acompanhada (por um homem claro está!) e como isso vai perder dois títulos mundiais de xadrez, ou ainda gente como o Mabil que nasceu num campo de refugiados e esta época joga futebol em Portugal, as figuras do ano são as Manuela’s, Maria’s, Carmen’s e Paula’s assassinadas pelos supostos companheiros, que com a sua vida nos despertam para a vida real, as figuras do ano são o Filipe’s, António’s e Ana’s crianças que são raptadas, violadas e exploradas, que mais que uma indignação mediática e instantânea merecem ser o exemplo de campanhas como o “#nemmaisumminutodesilencio”, movimento em português ou, à escala internacional, o “#metoo” que desencadeou 1,7 milhões de tweets em 85 países são exemplos de acontecimentos do ano, que fazem com que este seja ano de avanços em matéria de direitos das mulheres e de igualdade de género sobre os quais insistimos em ter pouco tempo para nos indignarmos mas que parecem finalmente ter tomado uma voz colectiva sem precedentes.

No ano em que o Tribunal Internacional da Jugoslávia condenou finalmente o "carniceiro da Bósnia" por crimes contra a humanidade e em que Países da América Latina e Caribe conheceram avanços legislativos históricos para impedir o matrimónio de menores, continua a guerra no Iémen, a maior catástrofe da humanidade neste século e a grande prioridade da ONU para o futuro próximo, na defesa da paz mundial.

E o ano termina com espanto, mesmo aqui ao lado na vizinha Espanha suspendeu-se, pela primeira vez a autonomia de uma Região, a Catalunha. A grande dúvida cai sobre a Espanha e certamente terá implicações no futuro do País, da Península Ibérica e no resto da Europa.

É costume dizer-te que o futuro a Deus pertence, mas eu sou crente é nos homens e mulheres de boa vontade!

Por isso, desejo a todos um bom 2018, cheio de saúde, sucessos e equilíbrio nas decisões, sem se esquecerem de olhar para os vizinhos com a devida tolerância e de se indignarem com o indigno e não com tudo o que mexe, lembrando sempre que há um impacto global nas acções individuais e locais, cada decisão nossa interfere nos equilíbrios dos mundos, da nossa casa e da nossa rua ao nosso país e ao nosso planeta.

Hakuna Matata (e um Tejo saudável!)

 

Partida em Coruche do Grande Prémio de Ciclismo Abimota - Fotos: João Dinis