chamuscal apartilhatecfresh2018 slide

Vítor Hugo Catulo

vitor catulo newA minha tia Genoveva, nascida em Bardez e viúva do único diretor de banco, genuinamente goês de toda a "Índia Portuguesa", como orgulhosamente gostava de sublinhar vezes sem conta, era uma mulher altiva, mas pouco inteligente, de olhos aparentemente perscrutadores como a personagem de Mrs. Bennet retratada no aclamado livro "Orgulho e Preconceito", de Jane Austen. Porém, era simultaneamente uma criatura doce, sempre atenta e pronta a ajudar, cordata e amorosa. Mas falava e falava até dizer basta a velha senhora!

Servia-nos faustos lanches quando a visitávamos na sua grande mansão em Mapuçá, erguida entre corredores infinitos de coqueiros e aromatizada por plantas exóticas como buganvílias e gergelim (sésamo) que o defunto marido mandara plantar.

Aqueles esplêndidos lanches, servidos com mestria por um velho e dedicado serviçal "satiagraha", de poucas palavras e deslizando silencioso sobre o soalho encerado de madeira de carvalho, eram invariavelmente acompanhados de groselha gelada com folhas de menta ou de chá quente amaciado com leite de vaca acabado de colher e cardamumo, conforme estivéssemos no pino da estação quente ou na época das monções.

Comíamos bolinhos de bacalhau, fofos e tenros como nunca se comeriam iguais, "larus" - uma divindade de doçaria goesa à base de sémola de trigo, açafrão, água de rosas, manteiga "ghee" e mel - sanduíches de fatias finas de carne de vaca com rodelas de pepino marinadas em vinho agridoce de palmeira (sura).

Perdoem-me a redundância, mas deliciávamo-nos com os acepipes e com a atmosfera desses momentos deleitosos que nos enchiam o corpo e a mente de puro prazer!

Mas tudo na vida tem um preço: à margem das quase cinco dúzias de anos de doces lembranças que me levaram à Índia onde nasci, para recordar nesta crónica a tia Genoveva, em jeito de engodo (que me perdoem) para a leitura da "dita cuja", deixemos a galática nave do tempo e pousemos nos dias de hoje. E o que temos? Insanidade cultural, consumo rápido e quase nenhuma reflexão.

Sem nos apercebermos, quem ainda a tem vai perdendo o gosto pela qualidade e baixando os níveis de exigência. A mediocridade instala-se, aplaude-se o que é mediano e consome-se tudo do que se nos dá. Perigosamente se massificam tendências porque massa crítica não há. E os que ainda a têm, muito perigosamente, estão a baixar a guarda!

Era uma picareta falante a saudosa tia Genoveva! Uma personificação do esplendor da picareta que mói e dói até que de tanto doer já não se sente dor!

Furadoras e martelantes, as picaretas de hoje tornaram-se veículos de opinião e são objetos de culto redundantes e injetores frenéticos de frases feitas, modas e tendências para parecer bem.

Cada vez que se liga a televisão ou se abre um jornal, há sempre uma picareta à escolha e à medida de cada um.

Há pessoas que, quando se lhes põe um microfone à frente, ou seja, à saída daquela cavidade que para muitos só deveria servir para meter ar e alimento, lavram sentenças e certidões antes de, quem por direito, tem a obrigação de as proferir. Deveria haver mais reserva e contenção.

Tinha razão a minha boa tia Genoveva: quem muito fala pouco acerta. E eu, entretanto, vou à cozinha deliciar-me com uma fatia de bebinca que restou de ontem e beber um copo de sura que deixei a refrescar no frigorífico.

 

Simulacro da Proteção Civil no Entroncamento - Fotos: José Neves