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Vítor Hugo Catulo

vitor catulo new"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia de um coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem de onde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta".

É um excerto do livro "Pátria", publicado em 1896 por Guerra Junqueiro, que transcrevi em jeito de auto-teste intimista e de provocação também. Perfazem hoje 95 anos sobre a sua morte que em 1923 pôs de luto o País inteiro.

Possa embora cair-se na tentação de reconhecer-se algumas similitudes com a situação atual seria de todo injusto ajustar cada palavra escrita pelo insigne poeta e pensador a cada padrão de comportamento desta condição que é hoje a de se ser cidadão português. Estabelecer uma similitude plena aos tempos de hoje será um ato de má vontade ou fraca memória.

Mais de cem anos se passaram desde então e eram outros os tempos - difíceis, dolorosamente difíceis - para o povo, apodado pela aristocracia subvencionada e pela burguesia endinheirada de arraia-miúda. O analfabetismo era generalizado, roçando os 100%, a distribuição da riqueza era uma quimera e a pobreza uma herança. Em consequência, a subserviência do povo aos seus senhores impunha-se como necessidade imperiosa de sobrevivência. Nem a implantação da República, que viria a ocorrer uns anos depois, e para a qual ele, Guerra Junqueiro, também contribuiu com a sua poesia panfletária, marcadamente anti-clerical e anti-monárquica, conseguiu erradicar tais mazelas das ruas, campos e lares portugueses.

Mal estaríamos se parássemos todos no tempo e ficássemos presos ao passado aceitando o "estado de coisas" como fatalidade ou castigo divino. Muitos anos depois, numa madrugada de Abril, que tal como 1910, se vai perdendo também na espuma dos tempos, a realidade portuguesa mudou para sempre e desde então um sem número de deveres foram acometidos ao Estado para benefício e bem estar de todos.

De entre eles, realço o Serviço Nacional de Saúde, as medidas de proteção a crianças e idosos e a assistência materno-infantil, cujos índices de sucesso batem os padrões europeus e nos deviam encher de orgulho.

Benza pois Deus os irresignados que tornaram tais conquistas possíveis num quadro de Liberdade que deveria ser dever de todos nós proteger e defender dos cada vez mais perigosos conceitos fascistas, piamente chamados de populistas não sei por quem, que alguns idiotas andam por aí a escrevinhar em pasquins e a berrar nas redes sociais.

Os restos mortais de Abílio Manuel Guerra Junqueiro repousam no Panteão Nacional há muitos anos.

Também hoje se completam dezoito meses que faleceu Mário Alberto Nobre Lopes Soares e foi anunciado ontem que os grupos parlamentares do PSD e do PS vão avançar com os procedimentos legais para a trasladação dos seus restos mortais para o Panteão.

O Presidente da República disse já que apoia sem reservas a iniciativa.

E eu aplaudo.

 

Simulacro da Proteção Civil no Entroncamento - Fotos: José Neves