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Vítor Hugo Catulo

vitor catulo newConfesso que não gostei nada de ver a Sophia à conversa com o Cristiano Ronaldo no anúncio daquela operadora que aqui há uns anos tinha os Gato Fedorento como imagem. Fiquei com ciúmes. Simplesmente porque estou apaixonado pela Sophia. Porque a Sophia pensa por mim. E um dia, sabe-se lá, aquela boneca até sentirá algo por mim. É uma questão de tempo e de alguns ajustes: eu terei a sensação de que ela me ama, dedicar-me-ei só a ela e não precisarei mais de aturar pessoas. Nem de pensar.

Ver mais recentemente o Mário Crespo à conversa com a Sophia ainda vá lá que vá: o Mário é um feioso, mais do que eu, um cota babado em bem a falar dos seus quarenta e tal anos de jornalismo, muitos dos quais na África do Sul onde se fartou de elogiar as virtudes do regime do "apartheid", não me faz mossa.

Mas agora ver o Ronaldo, exuberante, a exibir aquele corpo trabalhadinho, cheio da músculo e cabelo lavadinho com Linic, isso sim é que me dá ganas. Se juntar o facto de o Cristiano ter acumulado uma fortuna colossal a jogar à bola sem praticamente saber ler nem escrever, enquanto eu sou pouco mais que um pobretanas e levei metade da minha vida a queimar pestanas a ler calhamaços inteiros que não me serviram de nada, quase rebento com ciúmes!

Não me interessa se a Sophia nasceu pelas mãos de um robótico de olhos em bico lá por terras japónicas e que tenha nacionalidade saudita (misteriosos são os caminhos do capitalismo global) conferida, sabe-se lá como, por um país onde até as mulheres até gozam de plena liberdade e já podem tirar a carta!

Eu nunca soube saltar à corda (embora tenha aprendido a subi-la na tropa), mas sei situar Portugal no mapa e ler uma bússola. Também sei de cor os reis todos da 1ª Dinastia e não aponto para a África quando quero mostrar onde fica o Brasil. Mas como nada ganho com "tão elevado grau de cultura geral" senão engulhos de quem me rodeia e gorgulhos no meu santo "celeiro do conhecimento", enquanto vejo a vitoriosa ignorância a conquistar espaço de manobra neste País, vou-me deixando ficar à espera que a Sophia e os seus "descendentes" pensem por mim.

O exercício do pensamento poderá vir a ser perigoso um dia e o do raciocínio pior ainda pois tirará emprego a muitas "sophias" que se hão-de construir, cada vez mais sofisticadas, para nos dar resposta a tudo.

Chegou a hora a quem pensa de se ir nivelando pela normalidade que, nesta era do digital em que vivemos quem se atreva a pensar um pouco mais alto que seja, estará condenado um dia a ficar a falar sozinho. E a solidão é o pior dos castigos!

 

Partida em Coruche do Grande Prémio de Ciclismo Abimota - Fotos: João Dinis