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Vítor Catulo

vitor catulo newTal como a felicidade que não existe, outrossim que é uma estrada que se trilha na busca dela, também a justiça procura ser uma procura da verdade mas acaba por ser muitas vezes simples miragem, uma montagem construída, e que raramente se alcança.

Nas últimas quarenta e oito horas, parece que o mundo virou ao contrário e tipos como eu, já com alguma idade e uns alqueires de conhecimento na bagagem, vivemos momentos de incerteza sobre algumas certezas que pensávamos ter construído ao longo da vida e quedamo-nos de espanto.

A guerra na Síria sem fim à vista, as dezenas de mortos no conflito, reacendido, entre Israel e a Palestina, o drama dos refugiados, o silencioso genocídio de milhões de crianças que padecem de fome nos sertões e areias do deserto subsariano, a odiosa prática da excisão das meninas na Arábia Saudita, no Iémen, no Sudão e outras zonas de África, como no norte de Moçambique, em nome de uma auto-proclamada pureza islamita, a repressão turca sobre o povo do Curdistão, a vitória assustadoramente esmagadora de um antigo coronel do temível (ex) KGB (ex) soviético e as declarações grotescas da caricatura de "cowboy" que é um certo presidente americano sobre pretos e "xicanos" ou se foi ele ou não quem deu os cem mil dólares à puta para se calar, parecem ter passado a segundo plano.

Também por cá, a última polémica nacional - criada como sempre pelos lóbis do costume que controlam a informação consoante os interesses de ocasião - que é a de se saber se um surpreendente, e surpreendido, primeiro ministro vai dar ou não os mais alguns milhões de euros que uns quantos artistas reclamam para se manterem entretidos, parece que passou para a gaveta de baixo.

Na verdade, a atenção de muitos portugueses desviou-se momentaneamente do golo galático de Cristiano Ronaldo e virou-se para a Alemanha e para o Brasil, duas potências mundiais, colossos com quem mantemos as melhores relações comerciais, e não só, e onde temos centenas de milhares de compatriotas a viver e a trabalhar produzindo riqueza.

A justiça alemã, que é tida como senhora de uma retidão imaculada e hermenêutica inatacável, que fez escola e orienta magistrados insignes do mundo inteiro, deu um murraço na justiça do nosso vizinho aqui ao lado ao não reconhecer que o "perigoso" e "violento" Puigdemont, rosto do movimento independentista de um povo pacífico, tranquilo, esclarecido e de grande nobreza que antes nunca se houvera visto, da Catalunha, não praticou o crime de "rebelião" de que vinha acusado que justificasse a extradição do cordeiro para o sacrifício sagrado no altar do poderio espanhol.

"De Espanha nem bom vento nem bom casamento", se dizia antigamente e é bem verdade. Os espanhóis dominam hoje quase um quarto da nossa riqueza e mais de metade do Alentejo é já deles, é bom que se saiba.

Enquanto Lisboa se diverte e finge que faz política, o Alentejo vai-se espanholando.

Nós, portugueses, somos fortes e altivos, perdoamos a quem nos tem ofendido mas não esquecemos Olivença.

No outro lado do Atlântico, Brasil, está feito o cerco à justiça. Um homem do povo, metalúrgico e figura emblemática da revolução, lutador anti-fascista de décadas que nos galvanizou, figura carismática e símbolo libertário do mundo do último quartel do século XX, antigo presidente de um país gigante, nação imortal que foi outrora "terra de Vera Cruz e de Portugal" deixou-se deslumbrar e tomou posse de um apartamento triplex que não lhe pertencia.

Ficou provado e o réu (no código penal brasileiro o termo "réu" ainda se usa) assumiu ter tomado como seu o objeto que usou e não pagou.

O Supremo Tribunal Federal (que corresponde ao nosso Supremo Tribunal de Justiça) negou provimento ao Habeas Corpus e o combativo ex-metalúrgico e antigo presidente da República tem agora de cumprir a pena de 12 anos e 1 mês de cadeia em que foi condenado no tribunal de primeira instância.

O processo regressou às mãos do juiz titular, o famigerado (dizem os apoiantes do antigo presidente) juiz Sérgio Moro que ordenou a sua prisão.

Com o apoio, e tendo como escudo milhares de apoiantes, o condenado está refugiado na sede de um sindicato do seu partido: o PT- Partido dos Trabalhadores, que ajudou a erguer nos tempos de chumbo durante a ditadura.

O Brasil está a viver momentos históricos: o povo está contra a justiça ou será que é a justiça a contrariar o povo?

As próximas horas deste fim de semana serão decisivas e ditarão o resultado.

Aguardemos com serenidade.

Partida em Coruche do Grande Prémio de Ciclismo Abimota - Fotos: João Dinis