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Vítor Catulo

vitor catulo newOntem, a meio da manhã, fui à estação da CP a adquirir dois bilhetes, de ida e volta no Intercidades para Coimbra - para mim e para um colega que sobe no Entroncamento - a fim de estarmos numa reunião da direção de uma associação a que pertencemos.

Há muitos anos, embora com alguns interregnos, que viajo na CP. Tal como milhões de portugueses faço-o quase sempre por razões profissionais mas não é incomum as viagens acabarem por ser uma fonte de prazer e descoberta.

Enquanto o simpático bilheteiro atendia o meu pedido, não pude deixar de reparar que, ao lado, o seu colega vendeu um bilhete para o Regional prestes entrar com destino a Lisboa a um cidadão que me pareceu ser originário do subcontinente indiano. Seguiu-se uma senhora, portentosamente elegante e a expressar-se em inglês de Cambridge, logo seguida de um cidadão, que não tive dúvidas em identificar como sendo oriundo de um país do Leste pelo típico sotaque com o que se expressou em português.

Achei curiosa esta rara coincidência de três pessoas oriundas de países diferentes se cruzarem num mesmo sítio tendo em vista o mesmo fim numa tranquila manhã de inverno numa pacata cidade como é Santarém plantada no interior de Portugal.

Cada uma daquelas três pessoas está a centenas ou milhares de quilómetros das suas terras e pelo menos duas delas, deduzo, serão imigrantes. Veio-me à memória a epopeia das centenas de milhares de portugueses que emigraram à procura de melhores condições de vida e o que eles padeceram. Fizeram-no desde sempre mas acentuou-se nos anos sessenta do século passado e recrudesceu nos anos da crise recente que assolou muitos de nós. Adquiridos os bilhetes e enquanto regressava a casa vi-me a ver passar imagens, como se de um filme se tratasse, dos bidonvilles em que milhares de compatriotas nossos viveram em França enquanto ajudavam a construir o país. Viviam em condições deploráveis nesses bairros feitos de lata e procuravam amealhar o máximo que podiam para um dia poderem regressar à Pátria mais desafogados. Muitas vezes os pensamentos são cavalos à solta, não os controlamos, e dei-me a lembrar também de uma reportagem que passou há uma semana na Antena 1, “Nha Bairro Riobom” que dá a conhecer o dia a dia, miserável, de uma pequena comunidade cabo-verdiana que (sobre)vive nas instalações de uma antiga fábrica de curtumes junto à margem norte do Douro, na cidade do Porto.

O assunto - melhor dizendo, o problema - já tinha sido tema de reportagem, assinada por Patrícia Carvalho, no Público de 18 de Abril de 2015, portanto há quase 3 anos! Tudo na mesma, nada mudou.

Adianta agora a reportagem da rádio pública que, no final de dezembro, estavam identificadas mais de 25 000 famílias que precisam de uma casa mas que não eram ainda conhecidos os dados de cerca de metade das autarquias do País.

Vinte e cinco mil famílias (por enquanto, pois o censo não está concluído) representarão cerca de cem mil pessoas. É muita gente a viver em condições indignas num país que é suposto ser digno e que se pauta pela bitola europeia. São números que envergonham qualquer Português de Abril. Que o digam também aqueles nossos emigrantes antigos, hoje a gozarem as suas merecidas reformas e que tanto padeceram na “estranja” e bem sabem o que é o frio, o vento, a lama e a humidade a entrar-lhes pela “porta a dentro” das humildes barracas em que viveram.

O Presidente da República iniciou uma cruzada contra os “sem abrigo”. A intenção é erradicá-los de uma vez por todas das ruas e pô-los a viver em casas.

Louvável e piedosa iniciativa, a merecer eco do Governo e da Assembleia de República mas que não se esqueçam os políticos que há muitos milhares de pessoas a viver em casas degradadas e em guetos como Nha Bairro Riobom que também precisam de ajuda.

 

Partida em Coruche do Grande Prémio de Ciclismo Abimota - Fotos: João Dinis