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Vítor Catulo

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Decorre em Lisboa, pela segunda vez consecutiva, o Web Summit, Feira Internacional da Internet. Uma oportunidade de fazer negócios, estabelecer parcerias, encaixar alguns milhões nos cofres do Estado e projetar o País no mundo. Mas será a Internet, melhor dizendo o seu uso indiscriminado e sem controlo, saudável para a sociedade?

 Numa das minhas crónicas de opinião publicadas neste jornal, com o título "A Terceira Vaga", na qual expressava a necessidade de termos, cada um de nós, a nossa própria estratégia e não sermos parte da dos outros, dizia eu a dado trecho: "que tenhamos coragem para fazer pausas encerrando telemóveis, televisões e computadores a determinadas horas do dia (às refeições, por exemplo) e que nos obriguemos a conversar uns com os outros. Uma obrigação hercúlea para alguns, muitos talvez, mas humanamente necessária".

 Claro que, como qualquer outra opinião num país de "opinadores" em que nos transformamos, não passou disso mesmo: mera opinião de mais um (no meu caso identificado, não escondido no anonimato) "pensador," que não obriga nem vincula ninguém, senão a quem a expressa e que dá a cara por dever de coerência.

 Mais uma opinião que alguns leram, como lerão agora esta, à velocidade do gesto na tecla ou touch seguinte entre milhares de outras que circulam diariamente na enxurrada tecnológica em que nos vamos deixando levar a um porto de destino incerto.

 O surto, cada vez mais preocupante, de atos de violência entre as camadas jovens que, descuidadamente, estamos a criar para o futuro, já se tornaram banais. Vídeos de agressões bárbaras existem para todos os gostos.

 Diria mesmo que a violência, mais do que preocupante, começa a ser perigosamente recorrente.

 A fixação de satisfazer o ego exibicionista está a sobrepor-se à atitude, que seria de esperar que fosse natural e ancestralmente humana, a de viver os sentidos e partilhar emoções, indo em auxílio de quem está em apuros. Ao invés, faz-se o respetivo vídeo para pôr nas redes sociais e somar visualizações. E os comentários que, frequentemente, se lêem sobre as publicações são arrepiantes!

 Os números de pessoas que passam o tempo ao telemóvel, ligados à Internet, assustadores são. Ligados a um mundo virtual, mas desligados de quem, e do que os rodeia: as pessoas e o mundo real. Intragável é uma refeição em que não haja interação olho no olho, palavra na palavra, a uma mesa!

 Recentemente, num artigo de opinião no CM, Fernando Ilharco, professor da Universidade Católica Portuguesa, com vasta obra publicada sobre políticas motivacionais e estratégias de liderança, refere que 70%  dos portugueses usam smartphones e cita estudos de duas prestigiadas universidades - Colúmbia, nos EUA e Waterloo, no Canadá - que apontam haver uma negação involuntária dos utilizadores frequentes, leia-se compulsivos, da Internet em constituir memórias. E "a memória é a consciência inserida no tempo", como dizia Fernando Pessoa, sublinho eu.

Adianta o colunista: "o acesso constante à Internet altera o que sabemos, o que pensamos saber, o que memorizamos e muda, por isso, os nossos comportamentos".

 Existe, por conseguinte, uma relação causa-efeito sobre a utilização exagerada da Internet e à falta da socialização e interatividade tête-a-tête.

 Também o Professor Larry Rosen, da Universidade da Califórnia, perito na investigação dos efeitos da tecnologia na sociedade e autor de vários livros sobre o tema, entre os quais "I Disorder", campeão de vendas, afirma que "a tecnologia está a fazer parecer que temos sinais e sintomas de perturbações psiquiátricas. Parece que sofremos de DOC, distúrbio obsessivo compulsivo. Estamos sempre a verificar se temos algo novo nos telefones a toda a hora. Estamos obcecados!".

 Não são simples opiniões de um qualquer leigo. São conclusões baseadas em investigações e estudos científicos, pelo que devemos tê-las como sérias e não as ignorar. Estas a que me refiro e muitas outras que se buscarão. Os sinais são evidentes: a nossa sociedade apresenta sintomas de doença, com um défice cada vez maior de amor e compaixão.

 Tal como as medidas legais já tomadas contra o tabagismo e as que se têm implementado recentemente para contrariar o consumo excessivo do sal e do açúcar, também a dependência da Internet deveria ser encarada como um perigo potencial para a desumanização da sociedade e, como tal, considerado pelo Estado como um problema de saúde pública.

 Se algo não for feito para combater o mal, não nos admiremos se um dia acordarmos num destino de mutantes, seguidores de modas e chavões de momento, sem massa crítica e desprovidos de sentimentos.

Futebol: Jogo Coruchense x Mondenense | Fotos: João Dinis