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Vítor Catulo

vitor catulo newConta-se nos anais do Exército que o comandante, coronel, de um Regimento de Infantaria, após alguns dias de tomar posse, reparou que, dia e noite, estava um soldado plantado de sentinela junto a um banco da parada do quartel.

Intrigado, perguntou ao seu 2º comandante, sobre a razão de tão bizarro quadro que via diariamente.

Como o tenente-coronel não sabia, perguntou ao major, chefe do NOIP (Núcleo de Operações-Informações-Planeamento- Segurança) e afins. Como este não sabia também, mas queria, e devia pois então, ser devidamente esclarecido "por forma a informar o escalão superior para os devidos efeitos e fins tidos por convenientes", fez um despacho ao capitão da CCS (Companhia de Comandos e Serviços) do quartel.

O capitão, raposa velha com anos de tarimba e comissões sucessivas no Ultramar e já a contar os dias que faltavam para a reforma, torceu o nariz com chapa que diz "mais um que vem descobrir a pólvora".

Mas ordens são ordens e manda o dever de obediência que se cumpram. Mandou o ordenança chamar o sargento.

"Sabe alguma coisa sobre isto?", perguntou ao dito.

E mostrou-lhe o capitão SGE (Serviço Geral do Exército), a NI (nota interna) em papel timbrado da U (Unidade) autenticada com a rubrica do major a tinta preta de caneta de feltro, bem carregada a vincar personalidade em meia página da dita, treinada vezes sem conta nos seus tempos de cadete, na Academia Militar.

O sargento leu e releu o despacho três vezes até finalmente se fazer luz num neurónio esquecido ao fundo do seu hipotálamo acarinhado a vinhadalhos.

"Meu capitão, isso é assunto do SE (serviço de escalas), vou perguntar ao cabo".

E respondeu o cabo das escalas ao sargento: "o banco foi pintado e mandaram-me lá pôr um soldado de sentinela para ninguém se sentar nele".

"Mas isso foi há mais de um ano!", vociferou o graduado furibundo.

"Pois... ninguém me disse mais nada... e ordens são ordens", respondeu, encolhido, o cabo.

A informação da praça, seguiu os seus trâmites em NIC (nota interna confidencial), em PA (pasta de despacho), ao major no 1º dia útil de um fim de semana a seguir à Páscoa.

Entretanto, o comandante da Unidade deu baixa por torcer um pé quando andava à caça no Alentejo para os lados de Estremoz.

"O nosso comandante atira-se aos arames se souber desta calinada!”

Tem de se fazer uma NEP (norma de execução permanente) por forma a evitar que SDT (situações deste tipo) se repitam", decretou o major, chefe do NOIP. E fez um briefing com o staff.

"Meu major, salvo melhor opinião de V. Exª, a NEP tem de ir para homologação ao CEME (Chefe do Estado Maior do Exército) e autenticação ao ME (Ministério do Exército) com conhecimento ao MD (Ministério da Defesa) para catalogação e arquivo como mandam as NRV (normas e regulamentos em vigor) avançou, tímido, o alferes recém-chegado da EPI (Escola Prática de Infantaria) de Mafra. "Bem visto, você vai longe alferes!", respondeu o major.

Final da história: o coronel acabou por não ter resposta, entretanto passou à reforma antecipada por SRA (sequelas resultantes de acidente) e vive em Cascais, é sócio-gerente de uma coutada na Vidigueira, comprou um iate e faz cruzeiros pelo Mediterrâneo.

O tenente-coronel foi promovido, ainda comandou o Regimento, reformou-se e gere uma empresa de Mafamude que vende extintores e mangueiras de incêndios aos bombeiros.

O major também se reformou e é dono de uma empresa privada de segurança com sucursais em Angola e Moçambique.

O capitão passou à reserva pouco depois e junta agora à sua pensão de reformado do EP (Exército Português) umas quantas rendas de umas casitas que foi comprando na Reboleira enquanto andou a lutar pela Pátria no ultramar.

O sargento teve um AVC, anda de cadeira de rodas, mas isso não o impede de continuar a gerir a tasca de "comes e bebes" em Santa Marta de Penaguião com a ajuda da sua amada preta que trouxe da Guiné.

O cabo passou à disponibilidade pouco depois, vive em Queluz e é motorista da Carris.

O alferes é hoje tenente-general.

O posto de sentinela ao banco mantém-se.

Nota do autorEsta história, tida como verdadeira, foi romanceada pelo autor e qualquer semelhança com pessoas e factos é mera coincidência. As Forças Armadas de Portugal merecem-lhe todo o respeito, estima e gratidão e muito se honra de ter prestado serviço militar. Que se tirem tão-somente algumas ilações, e se faça a leitura que se entender, é a sua vontade e seu desígnio.

XTerra Golegã - Fotos Carlos Simões