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Vítor Catulo

vitor catulo newQuem ontem viu (e escutou) na SIC a entrevista do Dr. Pedro Passos Coelho não terá ficado indiferente àquela tónica de virulência e negação que imprimiu ao seu discurso. Tal foi o basismo de alguns argumentos que momentos houve, a pensar com os meus botões, em que me vi a compara-lo a um qualquer vulgaríssimo cidadão do quotidiano, de cã e barriga cheia, que à mesa de um qualquer café de esquina malha em tudo e todos, inconformado "com todas essas liberdades e faltas de respeito que por aí andam e ninguém trabalha. Antes é que era bom!".

Mas deixemos o antigo primeiro ministro no seu labirinto pois que a época é festiva e feita de amêndoas, ovos e coelhinhos. Que se faça a paz entre os homens e prossigamos por coisas boas.

Imbuído, pois, de espírito pascal e induzido, diria antes, seduzido pela cobertura ao "roteiro da pobreza" que, na noite anterior, esse sempre surpreendente presidente da República que temos, fez juntando-se desta vez a uma brigada de voluntários anónimos a dar apoio e algum conforto aos sem abrigo, decidi repescar uma crónica que escrevi há coisa de um ano sobre o voluntariado. Daí o título desta, em jeito de parte II, que vos ofereço.

Dizia eu nessa crónica que, por mera acaso e um conjunto de circunstâncias inesperadas, vi-me a fazer voluntariado junto dos meus antigos camaradas de profissão, agora tal como eu, aposentados e "com todo o tempo do mundo". Tempo que se deve aproveitar para lavar a alma, acrescento.

Encontramos de tudo na cruzada a que nos propusemos desde que inventamos essa geringonça que se dá pelo nome de PAPI: Programa de Apoio ao Polícia Idoso. Deparamo-nos muitas vezes, felizmente, com situações boas em que as visitas que fazemos mais não são do que pretexto para rever amigos, darmo-nos abraços e beber um copo. Porém, também surgem aquelas situações de até nos doer o coração quando encontramos camaradas, outrora fortes e vigorosos, dobrados pelo peso da "idade que não perdoa" ou, pior ainda, quando os vemos deploravelmente debilitados por motivos de saúde.

Mas acontecem também alguns momentos extraordinariamente felizes, quase mágicos, que dão um sentido de grandeza à condição humana e nos faz sentirmo-nos bem connosco e com os que nos rodeiam.

Tanto que não resisto em contar um episódio ocorrido em Santarém. Antes devo esclarecer que a ANAP-Associação Nacional de Polícias Aposentados, abrange também as viúvas de associados e todos quantos, mesmo sem exercerem ou terem exercido funções policiais, prestam ou prestaram serviço na Polícia de Segurança Pública. Independentemente de categorias ou distinções abarcamos, e abraçamos, todos os que servem ou serviram a Instituição, porque a ANAP norteia-se pelo princípio "diferentes, mas iguais".

Daí que um dia destes tivesse ido com um outro voluntário, Joaquim Justino, visitar uma nossa antiga servente de limpeza que, pela sua simpatia e boa disposição permanentes, tratávamos carinhosamente por "tia Emília". Foi uma festa quando nos viu! Âncora do lar, rodeada de netos e bisnetos encantadores, a velha senhora recebeu-nos de braços abertos e o questionário que é hábito fazer-se para sinalizar eventuais necessidades que possamos ajudar a resolver, foi feito entre sorrisos e aromas de boa disposição.

Uma experiência comovente que me levou a refletir, uma vez mais porque nunca é demais, o quão feliz e descomplicada é a gente simples. Gente feliz com lágrimas (tantas vezes tantas, sabe-se lá), mas gente genuinamente feliz. Pessoas admiráveis que, honradamente, ganham o pão enquanto cuidam dos seus mas que passam despercebidas, anónimas, por entre outras com outros objetivos na vida. Raramente se dá por elas e se lhes reconhece o devido valor, mas é essa mole imensa de obreiras invisíveis que assegura nos bastidores e que de tudo cuida para que outros brilhem no palco das estrelas. A minha homenagem a todas as "tias emílias" deste País!

E do "meu saber de experiências feito", como dizia o poeta, de boa mente vos confirmo: o voluntariado é uma estrada de dois sentidos e uma comunhão de afetos.

 

Futebol: Jogo Coruchense x Mondenense | Fotos: João Dinis