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Vítor Catulo

vitor catulo newNapoleão Bonaparte nasceu na Córsega, pitoresca ilha do Mediterrâneo e destino turístico de eleição, sob administração francesa desde 1768.

Era ainda muito novo, tinha 10 anos apenas, quando o pai, Carlo Bonaparte, circunspeto e respeitado juiz da circunscrição, decidiu o seu futuro e matriculou-o no Colégio Militar de Brienne, em França.

Os altivos e arrogantes cadetes franceses não viam com bons olhos os corsos, que consideravam gente de segunda, miserável e provinciana. Daí que não fosse incomum o jovem Napoleão ser alvo de piadas e da chacota quase diária dos "colegas".

Conta-se que certo dia, numa das costumeiras provocações de que era vítima, um deles lhe disse com desdém: "vocês, corsos, batem-se por dinheiro enquanto nós, franceses, batemo-nos pela honra!".

Sem perder a compostura, respondeu-lhe, sibilino, Napoleão: "cada um bate-se por aquilo que lhe falta". Consta que que desde então ninguém mais provocou o rapaz que acabou por completar os estudos em paz e acabou a governar a França e meia Europa!

Trouxe à liça esta pequena história para me referir a muito boa gente neste país, que nos governa e condiciona as nossas vidas, que honra é coisa que grande parte deles não tem: podem ter etiqueta e boas maneiras, usarem de grandes retóricas e serem exímios no uso das palavras, mas não são verdadeiramente pessoas de bem.

Define-se honra, e recorro ao dicionário de léxico comum, muito sumariamente, como sendo o "sentimento do dever, da dignidade e da justiça". Atente-se que é um sentimento, não uma qualquer imposição da lei decorrente do exercício de uma função. A honra é algo que é imanente do próprio homem, indissociável da condição humana, leia-se, de uma bondosa e cordata alma. Em suma, ela é o ADN de quem a transporta.

A fórmula do chamado "compromisso de honra" é antiga: "juro por minha honra que cumprirei com lealdade as funções que me são confiadas". Perde-se na poeira dos tempos a sua origem e desconhece-se quem a criou, mas estaria imbuído de boa fé com certeza. Porém, de tantas vezes a ouvirmos a ser lida e proclamada, com ar grave e sério para fotografia, em cada tomada de posse dos que são chamados a cumprir a espinhosa missão de "servir Portugal e o povo português" tornou-se chapa sem valor nem significado.

Todos que são chamados a governar, são colocados estrategicamente em gabinetes-chave. São peritos em alguma coisa, "de reconhecido mérito e provas dadas", e quase sempre vêm do sector privado: da finança, da indústria e da advocacia principalmente de firmas que pertencem à área da fiscalidade geralmente com carteiras de clientes VIP. Pouquíssimos são os que vêm do sector público e não estarei muito longe da verdade se afirmar que o XIX Governo Constitucional bateu todos os recordes de que há memória neste país na arregimentação de tais sábios!

Até fazem alguns brilharetes criando programas de controlo, que fariam Hitler parecer escuteiro, que sugam até ao tutano uns quantos milhões de zé pereiras mas depois lá aparecem umas quantas coincidências, uns maus entendidos e coisas bizarras como apagões informáticos que apagam o rasto de milhões de euros que voaram sabe-se lá para onde!

O regabofe à mesa do Estado é indesmentível e a manipulação das leis é realidade de todos os dias no secretismo dos gabinetes e corredores do poder.

Como o fito de tais doutas personagens é pois o dinheiro, ganhar muito dinheiro, a honra, como sentimento nobre e sério demais que é, deveria ficar na gaveta e deixar de ser invocada por forma a não dar cobertura a certas negociatas e outros desbundes. Simples declaração bastaria: "declaro que bem cumprirei a missão que me foi confiada". Assim, pelo menos as almas simples e de coração ameno já saberiam o que as esperava, dormiriam descansadas e não teriam surpresas. 

 

Carnaval Samora Correia - Fotos João Dinis