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Vítor Catulo

vitor catulo newViveu tão discretamente como morreu e o legado que deixou, de pensador insigne e do exemplo de homem de causas que foi, não pode, nem deve, ser esquecido. A sua morte, que aconteceu em 11 de Novembro, ocupou o espaço, sobriamente curto, na grelha de um dia de notícias normal nos jornais e nas rádios e televisões. Não alcançou em vida, porque não o desejou certamente, o estatuto de estadista ou revolucionário. Não foi jogador de futebol nem tão-pouco artista de variedades que justificassem exéquias espampanantes.

A sua obra, porém, merece ser profundamente estudada e maduramente refletida. E, sobretudo, profusamente divulgada para que nunca caia no esquecimento potenciado nos tempos que correm por um lamaçal de pequenas frases, de conteúdo óbvio, cirurgicamente construídas por políticos populistas, que atordoam o raciocínio de quem ainda vai querendo pensar.

Alfredo Bruto da Costa nasceu em Goa, antigo Estado da Índia (Portuguesa, para que conste, porque o foi) e faleceu em Lisboa com 78 anos, vítima de doença prolongada. Talhado para as causas sociais, ocupou alguns cargos de relevo - foi ministro da Coordenação Social e dos Assuntos Sociais do V Governo Constitucional, chefiado por Maria de Lurdes Pintasilgo, provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e conselheiro de Estado) podendo ser considerado um cientista da pobreza e como tal ocupar o seu lugar na História.

Ninguém melhor do que ele terá estudado em Portugal o flagelo da pobreza que enferma a nossa sociedade e poucos como ele terão apontado para soluções de equidade e justiça que infelizmente não foram seguidas pelo poder político desde sempre refém do poderio económico.

Partindo da premissa de que o problema de Portugal não é tanto a pobreza, mas a desigualdade, que nunca foi combatida seriamente, e tendo como referência estatísticas de organismos de ação social que apontavam existir em Portugal no ano de 2014, após 40 anos da Revolução de 25 de Abril, 850 mil desempregados, sem que mais de metade dos quais recebessem qualquer tipo de subsídio, e 30% e 40%, respetivamente, de pensionistas e empregados pobres, recorro a uma entrevista que ele deu à revista Visão de 20 de março desse ano:" dar ao pobre é devolver o que lhe pertence". Quando a dado passo, a jornalista perguntou-lhe porque existia ainda (referia-se ao século XII, quando a sociedade se começou a interessar pelos pobres) tanta pobreza em Portugal, respondeu: "houve uma grande confusão entre acudir ao pobre e acudir às necessidades humanas. Muitas instituições limitaram-se a combater as carências das pessoas e não a causa que as levavam a ter carências. Para combater as causas, era preciso tornar as pessoas autossuficientes. Para ajudar as pessoas a sair da pobreza, impõe-se mexer nos salários e pensões, para que elas não precisem de recorrer a serviços de assistência".

E mais adiante, provocado a estabelecer diferenças entre esquerda e direita, prosseguiu: "normalmente a esquerda é mais sensível à desigualdade. Mas em ambas há uma noção económica que justifica a desigualdade: sem desigualdade não há poupança, sem poupança não há investimento e sem investimento não há crescimento económico. É uma justificação tecnocrática da desigualdade. Há que ter a noção que o crescimento económico tem de contar com mecanismos de distribuição, introduzidos por via das políticas, porque não resulta dos mecanismos do mercado; e que a repartição primária dos rendimentos, com origem na atividade económica, envolve desigualdades que a redistribuição tenta atenuar, mas nunca resolver".

Poderá não se concordar com ele, estou seguro que sim. Há políticas económicas que apontam precisamente a solução inversa: para uma minoria imensamente rica quanto mais pobres houver melhor: a mão-de-obra torna-se barata, a produção aumenta (mas para quem?) e as classes dominantes apregoam o aumento do produto interno bruto nos países. E não é esse seguramente o caminho que se quer para Portugal e para o mundo. Devolver aos pobres o que lhes pertence, mais do que um dever moral, é uma forma de fazer política séria e honrada. 

Não se concorde com ele, mas que não seja nunca ignorado Alfredo Bruto da Costa.

 

Balonismo em Coruche - Fotos João Dinis