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Jorge Nogueira

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Esta é uma época propícia a recordarmos o ano que está prestes a findar e a anteciparmos o que aí vem... é uma quadra de balanços, de recordar acontecimentos, de selecionar momentos, frases, fotografias. Enfim, acredito que esta pulsão para fazermos balanços nos ajuda a preparar acontecimentos futuros. E concordo, plenamente, com aqueles que dizem que aprender com o passado é das mais revigorantes tarefas para o nosso futuro.

 

Eu já comecei a preparar-me para o ano que aí vem... já revi aqueles momentos de exaltante orgulho nacional. Voltei, por isso, a emocionar-me com a conquista europeia da nossa seleção de futebol, voltei a vibrar com a brilhante e afetuosa vitória presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa, voltei a sentir orgulho na candidatura de António Guterres a secretário-geral das Nações Unidas.

 

Estou preparado... já enchi o coração de um autocomprazimento lusitano. Que venha de lá 2017, estou preparado.

 

Que venha de lá mais um ano de um governo sustentado numa geringonça. Que venham de lá mais 12 meses de um equilíbrio periclitante entre partidos alegadamente anti-austeridade. Que venham de lá revigoradas promessas sobre o fim da dita cuja. Que venham de lá desculpas assentes no facto de o partido com maior representação parlamentar se manter com os mesmos do passado austeritário. Que venham de lá loas ao passado pelos que seguiram à risca, e às vezes com satisfação, o guião escrito pelos credores internacionais. Que venham de lá notícias sobre a continuada estagnação económica. Que venham de lá preocupações, cada vez mais intensas, com o envelhecimento e a desconfiguração da nossa pirâmide etária. Que venha de lá tudo isso... nada será verdadeiramente novo e nós, os portugueses, estamos mais do que preparados. Acho que estamos mesmo vacinados para todas estas vicissitudes.

 

Eu, por mim falo, estou preparado para um ano novo muito parecido com o que está à bica para terminar. Estou preparado para assistir a um Governo que irá gastar o pouco que tem e comprometer o nada que virá a ter. Estou preparado para que os governantes continuem a inventar coisas boas, a remediar as coisas assim-assim e a reverter as coisas muito más. Estou ciente que a nossa esperança continuará a ser alimentada, sempre na ilusão de que o melhor das nossas vidas ainda está para vir. É disto que estou à espera, mas não era exactamente sobre isto que vos queria falar. Hoje queria escrever sobre a dicotomia entre confiança e esperança.

 

“Confiança e Esperança” são o alfa e o ómega da política. E do ponto de vista eleitoral, as Eleições Autárquicas são aquelas que melhor combinam os meandros da confiança com os desafios da esperança. Em 2017 vamos eleger órgãos autárquicos e é preciso, por isso, que se coloquem desde já algumas questões determinantes. Abstenção, alheamento, desinteresse, afastamento, incompreensão, repúdio, crítica, renúncia e rejeição são os principais sinais que os eleitores têm enviado ao sistema.

 

Muito tem sido dito e escrito sobre o contínuo aumento da abstenção. Está mais do que provado que as palavras não têm conseguido levar os eleitores às urnas e será, por isso, urgente procurar novas regras e outros caminhos, no modo como nos relacionamos com os processos eleitorais. Eu sei que o processo autárquico continua a ser aquele que consegue um melhor desempenho no que diz respeito aos votantes, mas também reconheço que os sinais de desgaste e descrença do eleitorado estão mais vivos do que nunca.

 

Para essa vivacidade negativa muito tem contribuído ações e omissões dos representantes dos partidos. Tenho, desde há muito tempo, uma total incompreensão para com aqueles que, sofrendo de falta de legitimidade pelo facto de terem sido condenados judicialmente, querem continuar na esfera da representatividade política. Não compreendo partidos que, numa dimensão nacional, distrital ou concelhia, continuam a confiar em quem não tem, por via de condenações, uma relação normal com a Justiça. E não, não me estou a referir a condenações por contra-ordenações de trânsito, nem a condenações por desrespeito à liberdade de imprensa.

 

Como é que é possível que partidos, que se dizem responsáveis, permitam que destacados dirigentes ou eleitos com tantas responsabilidades sejam um tão mau exemplo para o comum dos cidadãos? Como é que se justifica, perante um eleitor normal, a continuidade de um dirigente partidário condenado em primeira instância e com decisão confirmada pela Relação pelo facto de se ter apropriado de dinheiro que não lhe pertencia? Como é que foi possível chegarmos a este absurdo? Como é que ninguém toma medidas para acabar com este péssimo exemplo para uma relação, que se quer sadia e exemplar, entre eleitos e eleitores?

 

Eu bem sei que estes "condenados" são uma imensa minoria na nossa política. Não confundo, por isso, o respeito que me merece a generalidade dos partidos, dos dirigentes e dos eleitos, com a repugnância que me causam estes casos isolados. Mas ainda assim não consigo compreender como é que camaradas ou companheiros, bem como adversários partidários, permitem que estes activos tóxicos inquinem todo o processo relacional dos partidos com o eleitorado.

 

Não consigo compreender que adversários políticos não façam destes casos, casos exemplares para a manutenção dos mínimos da decência e da ética. Se este silêncio auto-imposto resulta da prudência característica de quem tem telhados de vidro, então temos um problema mesmo sério. É que os eleitores já têm uma tendência natural e admissível para tratar como igual o que apenas parece semelhante. Não sei se esta prática é justa ou injusta, mas sei que para a generalidade dos cidadãos os calados e os silenciosos são frutos da mesma árvore.

 

Estas são algumas das condicionantes à confiança. E, como se sabe, a esperança vem sempre depois da confiança. É por isso que faço votos que, no próximo ano, a imensidão de gente séria que dá corpo à política partidária consiga expurgar aquela pequena minoria de casos absolutamente intoxicantes da opinião pública.

 

Prometo que no próximo ano dedicarei algumas palavras ao grande tema da esperança. Sei que com ela é difícil, mas que sem ela é impossível. É, por isso, que peço encarecidamente aos atores políticos que tratem com urgência da relação de confiança que querem manter com os cidadãos e, só depois, enveredem pelo caminho da esperança. Se não conseguirem resolver a questão dos alicerces, vão querer começar novamente a casa pelo telhado. E para estas maleitas já existe há muito tempo uma mezinha popular... chama-se abstenção e é um verdadeiro cancro da nossa Democracia.

 

Um feliz Natal e um próspero Ano Novo a todos os leitores e amigos da Rede Regional.

 

Jorge Nogueira

Desert Challenge 2017