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Jorge Nogueira

jorge nogueiraGostava muito de ter a arte e o engenho para começar este texto com uma frase memorável sobre os perigos do “Mundo-Depois-de-Donald-Trump”.

O novo “Mundo-DDT” começou apenas no passado dia 9.11.2016 e está longe de estar integralmente formatado. Esta é, por isso mesmo, a melhor altura para dissecar Donald Trump.

Se o esmiuçarmos bem, talvez consigamos que os nossos concidadãos deste velho Continente compreendam a essência do que temos, de novo, pela frente. Rejubilaria se estas palavras ajudassem a atenuar as cenas de ódio que vamos ter que enfrentar. Ficaria imensamente feliz se estas palavras se encaixassem em muitas outras e que, todas juntas, formassem um verdadeiro movimento de democratização do cidadão.

Recordam-se das iniciativas de alfabetização, do pós-revolução de 1974? A ideia agora poderá ser muito parecida, mas na pasta, em vez dos livros que ensinam a ler, devemos colocar todos os manuais de Democracia. A Campanha Europeia poder-se-á chamar “Vamos criar um democrata em cada europeu” e poderemos dividi-la em três grandes temas: “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Talvez se partíssemos já e em força conseguíssemos evitar males maiores.

Como bem sei que a logística de uma campanha desta magnitude leva algum tempo a preparar e como devemos cuidar muito bem das ideias, das palavras, das citações que devemos usar nesta tentativa de democratizar os nossos concidadãos, aconselho vivamente a leitura de um excelente romance de Timur Vermes, editado pela Lua de Papel em 2012, com o título “Ele está de volta” ou “Er Ist Wieder Da”, no original.

“Berlim, 2011. Adolf Hitler acorda num terreno baldio. Sente uma grande dor de cabeça. O seu uniforme tresanda a querosene. Olha à sua volta e não encontra Eva Braun…” começa assim o romance de Timur Vermes que é passado na Alemanha de Merkel, 66 anos depois do fim da II Guerra Mundial.

“Hitler ganha nova vida. Na sociedade espectáculo, dos reality shows e do YouTube, o renascido Fuhrer é visto como uma estrela, um comediante, que uma televisão sequiosa de novidades acolhe de braços abertos. A Alemanha da crise, do Euro ameaçado, da austeridade, vê nele um palhaço inofensivo. Mas ele é real, assustadoramente real. E, passo a passo, maquiavelicamente, planeia o seu regresso ao poder – por via da televisão”.

A televisão, sempre a televisão, na sua busca incessante por mais, cada vez mais, audiências foi baixando o nível dos seus protagonistas ao ponto de em determinados programas, principalmente sobre futebol, já ser difícil vislumbrar laivos de decência. É claro que estou a falar de canais de televisão nacionais, mas acredito que não serão muito diferentes dos que se vão fazendo pelos restantes países europeus.

E do outro lado do Atlântico, na terra das liberdades e dos self-made men (empreendedores numa tradução benigna), o panorama televisivo é há muito conhecido. Steve Kerr, treinador dos Golden State Warriors, uma das mais importantes equipas de basquetebol norte-americano, colocou em palavras aquilo que há muito vem sendo dito em surdina.

A propósito da eleição de Trump, Kerr apontou o dedo ao nível do discurso eleitoral e incluiu-se na crítica aos que deviam ter visto o que estava a chegar quando, nos últimos dez anos, se pagou milhões de dólares a pessoas para irem para as televisões gritarem umas com as outras. Era apenas uma questão de tempo até contaminar a política.

É neste caldeirão que vamos, democraticamente, prepararmo-nos para os ataques que parecem eminentes. E como em tudo na nossa vida, podemos começar por aquilo que está mais perto de nós e que, por isso, conhecemos melhor. Podemos começar por fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para retirar da abstenção aos actos eleitorais cerca de metade dos eleitores. Se os democratas não conseguirem trazer para o sistema estes milhões de eleitores não praticantes, haverá alguém no futuro próximo que pegará neles, através do populismo, da demagogia e das fantasias isolacionistas do “antes-só-que-mal-acompanhados”, e os moldará a seu belo prazer.

Como tudo poderá ser diferente se todos os eleitores sentirem uma vontade democrática de participar. Estou profundamente convencido que a sociedade portuguesa terá que mobilizar-se em torno deste grande esforço de levar às urnas a maioria abstencionista. Que se criem novas regras eleitorais, que se mudem velhas formas de participar, que se privilegiem os eleitores em detrimento de outros protagonistas. Vamos ter que fazer desta questão “a questão da nossa democracia, das nossas democracias”.

Só espero que os últimos 70 anos de paz não tenham amolecido o coração dos europeus. Bem como desejo que os últimos 42 anos de democracia em Portugal não tenham excluído de forma irremediável cerca de metade dos eleitores. Penso que não, mas por via das dúvidas, o melhor mesmo é começarmos desde já a campanha “Vamos criar um democrata em cada europeu” com um subtema bem português que pode intitular-se: “A votar é que a gente se entende”.

Jorge Nogueira

Futebol: Jogo Coruchense x Mondenense | Fotos: João Dinis