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Susana Veiga Branco

Susanaveigabranco01O Mercado Municipal de Santarém, projetado em 1927 pelo arquiteto Cassiano Branco, é o mercado da minha infância, onde ia com a minha avó todas as manhãs às compras. O peixinho e a carne, os legumes, as pombinhas, as arrufadas, enfim. Quando comprávamos ovas, a minha avó fritava-as de forma única e eram uma das minhas iguarias favoritas. Levava a carteira com o dinheiro e fazia os trocos. Íamos a pé, pois os meus avós moravam muito perto.

Também ia ao mercado todos os sábados de manhã, com os meus pais, comprar peixe para grelhar e fruta. Ainda consigo sentir o sabor das melancias em almoços de verão. As sardinhas, na época delas, eram as rainhas e também muitas vezes peixe do rio, sobretudo a fataça, que aprendi a encontrar paciência para comer, por causa das espinhas. Por vezes também tremoços mas não flores, embora demorasse sempre nelas o meu olhar. É que as minhas avós tinham muitas, não era preciso.

Mais tarde, ia com o meu marido e comprávamos variado, parando ainda nas bancas dos queijos.

Com o passar do tempo, fui deixando de lá ir, em parte porque não vivo no centro e em grande parte por um saudosismo que dói, porque o mercado está como sabemos.

Por isso aguardo com tanta esperança e fervor a requalificação deste Mercado, classificado com Imóvel de Interesse Público, fazendo parte inerente do património de Santarém e de cada scalabitano.

Soubemos na passada semana que o início das obras está previsto para abril de 2019. Um projeto do Arquiteto Paulo Durão, com obras interiores profundas, subdividindo o interior do mercado em quatro praças, em formato de cruz. Trinta e seis bancas para mercado diário, restauração, lojas e posto de turismo. No exterior as lojas serão para atividades comerciais diversas, como o artesanato e vinhos.

Pretende-se aliar a vertente dos produtos locais à qualidade, à restauração e ao turismo. São dois milhões de euros de investimento. Vamos embora começar!

É que não deixar morrer este mercado é não deixar morrer esta tradição, mas dar-lhe uma dinâmica atual, uma vida que já não tem, apesar do seu conjunto único e magnífico de azulejos e traça irem resistindo, numa manifestação clara de não desistência, de lugar que é seu na história.

Com localização perfeita e as demais características peculiares que lhe conhecemos, desejo que a requalificação permita o que por exemplo sentimos no Mercado de Campo de Ourique (mais do que no Time Out Market Lisboa, o recuperado Mercado da Ribeira) ou no Mercado de São Miguel, no centro de Madrid. Falo na mistura de cheiros e cores, na proximidade da venda de produtos, onde nos podemos sentar a comer gourmet num lado mas olhar para outra banca e ir comprar uma caixinha de mirtilos e framboesas para acompanhar, um queijinho e um belo copo de sumo natural ou vinho da região. Deixar o olhar percorrer pela vida a pulsar no mercado, com visitantes deliciados e sacos de compras nas mãos, por o mercado ser único, ser fantástico, ser irresistível...

Simulacro da Proteção Civil no Entroncamento - Fotos: José Neves