chamusca appcoruche ficor

Susana Veiga Branco

Susanaveigabranco01Na última crónica que escrevi para a Rede Regional, acerca do Rio Tejo, deixei prometida para agora uma acerca do Rio Alviela. Cá está ela! Uma crónica como uma moeda, com dois lados.

Este Rio, que tem origem na Gruta do Alviela, freguesia da Louriceira, concelho de Alcanena, atravessa as freguesias de Vaqueiros, Pernes e São Vicente do Paúl e vai desaguar em Vale de Figueira, no Tejo, no concelho de Santarém. Tem cerca de 60 quilómetros de comprimento.

Um Rio magnífico, outrora de águas límpidas e cristalinas, cheio de peixe e de alegria das pessoas que nele desenvolviam atividades de lazer e económicas, mas que nos últimos anos tem sido local de despejo de tudo o que é matéria poluente, de tudo aquilo que os outros não querem.

Mais, tem vindo a piorar. Desde lagares, a pecuárias, a outras atividades e aos privados, o rio serve para deitar fora tudo o que não se quer. É para a ETAR? Mas então se está aqui o rio, é despejar para ele. Da ETAR não falo, pois não tenho competência para tal, mas tenho um corpo, um corpo que sofre com esta poluição, tal como o corpo de todos vós.

A juntar a esta problemática da poluição temos agora os jacintos de água, uma planta exótica invasora que chegou a Portugal e que já está espalhada pelo mundo, infelizmente. Gosta de águas poluídas e rapidamente se propaga, criando um manto que não deixa mais nada sobreviver. Não há biodiversidade, pois não há oxigénio na água.

Para poderem ter a noção do impressionante que é, consegui andar por cima deles, em pleno rio. Uma sensação de esponja, de ligeiro flutuar, estranho, muito estranho.

Os impactos são ambientais, de saúde, económicos e sociais.

No passado mês de janeiro ocorreu em Vale de Figueira uma ação de sensibilização e retirada de jacintos do Alviela. O departamento do ambiente da Câmara Municipal de Santarém, a União de Freguesias de São Vicente do Paúl e Vale de Figueira, a APA-Agência Portuguesa do Ambiente e Administração da Região Hidrográfica do Tejo e Oeste, o ICNF-Instituto de Conservação da natureza e Florestas, os Bombeiros Municipais, a GNR, a Comissão Social de Freguesia de S. Vicente do Paúl e V. de Figueira, os Amigos do Alviela, as Associações, os proprietários dos terrenos confinantes com o rio, a população e a comunicação social foram convidados a colaborarem na ação.

A ação da equipa técnica da EMAS-Departamento ambiental da CMS não teve mãos a medir e o seu esforço, empenho e trabalho foram dignos de um enorme obrigada. Com água até quase ao pescoço trabalharam afincadamente libertando o rio da praga e no final, quando um peixe saltou no rio, foi a natureza a agradecer. Lindo!

Mas com imensa pena vos digo que os participantes, no local, foram muito poucos. Com tristeza vos confesso que, não só como autarca mas a nível pessoal, me desgastou. Fiz de tudo para que esta ação decorresse e a sua divulgação. Defendo os Rios de coração e com fé de que um dia voltarão a ser preenchidos por imagens de brincadeira, de pesca e de embarcações, mas dói ver tanto a desresponsabilização como a falta de interesse de tantos, ou melhor, da maioria. Tenho de compreender quem já desistiu ou não acredita.

Mas não, eu não vou por aí. Espero ter a coragem e determinação suficientes para nunca ir por aí. Pelo menos já temos chuva; como se vê há sempre uma janela que se abre.

Outra dessas janelas é já no próximo dia 24 de março. Vai ocorrer uma nova ação de sensibilização e remoção de jacintos no Rio Alviela. Desta vez será em S. Vicente do Paúl, junto à Ponte Romana. Lá estarei e lá levarei a minha família. E divulgarei, divulgarei tanto até não me poderem ouvir mais, porque este grito é pelo futuro das novas e futuras gerações, é por este planeta que está totalmente alterado em questões climáticas mas que só perceberemos quando não conseguirmos respirar ou quando o mar nos passar por cima ou quando não tivermos água para beber ou, ou, ou…

Espero-vos lá! Obrigada por ouvirem e lerem os meus desabafos, obrigada àqueles que acreditam e trabalham em prol dos Rios, porque sim, são poucos, mas existem e são meritórios do nosso profundo reconhecimento.

 

Inauguração Sabores do Toiro Bravo, em Coruche - fotos João Dinis