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Susana Veiga Branco

Susanaveigabranco01A primeira crónica que escrevi para a Rede Regional foi sobre os Rios Tejo e Alviela. Hoje volto a eles, volto em parte triste e desanimada e em parte sobretudo esperançosa e portadora de uma resiliência que não me deixa abandonar este património à mercê de quem o destrói, de quem o vê e utiliza como esgoto.

Não sou filha nem neta de pescadores. Não sei muito sobre rios, mas aprendi a nadar num e cresci com outro aos pés. Em ribeiros de água fresca muito chapinhei. Aquela água gélida e translúcida que acarreta na sua força a pureza, cujo frio passa das botas de borracha para o corpo e nos faz tremer, mas continuamos lá, porque assim é que estamos bem.

Conhecem estas sensações? Uns sim, outros não porque não têm essa oportunidade, porque são tempos de outrora. Tempos que não voltarão? Ficam as memórias passadas, certo, mas e as memórias que se devem criar hoje para recordar amanhã? Fica o cheiro a sujo, a degradação, fica o opaco que não deixa passar a luz para vermos os peixes, fica a frase que disse, com tanta pena, à minha filha, no barco: “Não ponhas a mão na água, sabes que está poluída!”. Isto é frase que se diga a um filho? Isto é tristeza, tristeza absoluta. Ver a cara dela e a vontade de sentir o prazer da água a escorrer pelas mãos enquanto o barco deambulava pelo Tejo. Um prazer tão simples mas negado. Não quero isto. Não queira isto.

Estive há dias no “Segundo Seminário sobre o Desenvolvimento das Comunidades Ribeirinhas do Tejo”, em Vila Velha de Rodão, organizado pela CIT-Confraria Ibérica do Tejo e pela Universidade Europeia. Esteve em destaque a proteção e salvaguarda do Tejo como património natural e cultural, esteve a definição de organizações estruturais de trabalho e de ação para a bacia hidrográfica do Tejo. Mas uma das questões que mais me despertou foi a apresentação de um conjunto de projetos, ou seja, a existência de projetos de âmbito económico, cultural, ambiental e estrutural.

O que quero dizer é que sabemos que existe um conjunto vastíssimo de dificuldades e problemas a resolver, problemas de base, que reportam a ministérios, a leis não cumpridas, a uma infinidade de entidades e de autorizações e sobretudo a mentes pequenas. Mas por outro lado, existe esta apetência pelo Tejo, há quem não o esqueça e dele queira tirar partido em benefício de todos nós e do nosso País.

Estes projetos só têm futuro se o problema da poluição, entre outros, como as redes ilegais e tantos mais diminuir, certo. Mas pensar nesta hipótese (e foram apresentados 37 projetos!) faz pensar. Pensar que podemos continuar a lutar, pensar que nos planos de ação integrados, nas parcerias e na firmeza em não desistir poderá estar o caminho…um caminho que nos deixe navegar no Tejo, como outrora, que nos deixe sentir a água que o percorre na nossa pele, que nos deixe torna-lo novamente uma fonte de riqueza a todos os níveis…

Quanto ao Alviela, também tenho uma história para contar, uma história que não cabe nesta crónica, mas que fica prometida para a próxima crónica. Até lá!

 

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