chamusca pinoquioavisan2017

Susana Veiga Branco

Susanaveigabranco01No dia em que escrevo esta crónica, o dia iniciou, a meu ver, perfeito. Saí e senti o impacto do cheiro a terra e palha molhadas, após dias de intenso calor. As rolas cirandavam pelo chão, descontraidamente. As cores eram vibrantes, quentes, de um sol que se mistura com nuvens e promete trovoada, num misto de calor, fresco e abafado, numa junção que nos desperta os sentidos, nos lembra que viver e absorver estas paisagens é algo de especial. Para mim, mais que especial, essencial.

Quem acompanha as minhas crónicas e me conhece sabe que sou acérrima defensora do campo e que meio urbano e meio rural deveriam ser extensões um do outro e não aquilo que vemos, quase que concorrentes, sendo que o primeiro ganha em larga escala ao segundo, que definha e com ele as suas poucas gentes que ainda persistem.

Numa altura em que se vê o turismo de natureza como o turismo do futuro e considerando-se o património natural a grande mais valia atual, estando esta referência presente no estudo efetuado para os próximos dez anos da “Estratégia Turismo 2017 do Governo Português”, porque é então tão difícil o investimento no campo? Porque não se consegue avançar nesta área, criando riqueza?

Conhecendo o mercado imobiliário em meio rural ribatejano, sobretudo no Concelho de Santarém, com a marca da passagem de mais de uma dezena de anos, as histórias comprovativas deste valor são imensas.

Entre portugueses e alemães, suiços, franceses, mexicanos, argelinos, brasileiros e muitas outras nacionalidades, as histórias vão-se acrescentando umas às outras e são tantas…que não resisto a deixar algumas.

Desde algarvios que percorrem o trajeto até cá para passar fins de semana e todos os dias que têm livres aos lisboetas com histórias curiosas, lembro a conversa com uma cliente que se tornou amiga e que me dizia “Custa-nos tanto ir embora daqui ao domingo à noite que desistimos e vamos só às segundas de manhã”. O filho chegou mesmo a deixar o seu apartamento luxuoso com empregada para vir morar no campo, tendo por companhia os seus cães e a natureza, não dispensando caminhadas e a tranquilidade para ler e estudar, para apreciar a calmaria. Esta família sobre a qual escrevo apreciou de tal forma a vida natural campestre que chegou a comprar um pequeno trator, mas muitos vêm só para disfrutar a natureza no seu geral; não só a piscina no verão mas também o frio do inverno, aproveitando o conforto de uma lareira e partilhando as paisagens, a beleza e o puro, descobrindo a cada estação um motivo para múltiplas atividades entre família, amigos e eles próprios.

Em frente à casa de uma mexicana tirei fotos de um campo de papoilas, para ela ver quando viesse a Portugal. Quase que chorou por não ter visto e acabou por decidir vir para cá morar mais cedo do que tinha previsto. Deixou de ser turismo, passou à fase seguinte: dois em um, criação de riqueza a dobrar. Espetacular.

Um casal de alemães também trocou a sua terra natal pelo campo do Concelho de Santarém e quando os encontro dá-me sempre a sensação que estão a rejuvenescer, ele dedicado aos seus barcos miniatura que cria num estúdio na casa, com janelas para o jardim, para o campo e para a cidade de Santarém, ela toma banho diariamente na piscina, de manhã cedo, dizendo que a revigora para o dia. Começaram pelo turismo de natureza, para conhecer, decidindo-se por ficar por aqui.

A apetência por jardinar e criar hortas, o pedirem informações sobre o clima e plantas e ficarem avidamente com as minhas podas de roseira mistura-se com projetos à grande, por exemplo de engenheiros que se mudam para cá e depois decidem plantar vinhas em quintas de média e grande dimensão, sempre voltadas para o mesmo, a vontade de viver o campo, o nosso petróleo.

Se em 2016 se verificou um aumento do turismo na época baixa; se os campos já não são o que eram no coração do Ribatejo e facilmente se chega a todo o lado, seja ao aeroporto seja a uma mercearia ou uma banca de jornais; se as gentes continuam afáveis, com o seu bem receber sempre pronto e determinadas a manter tradições e a não perder as suas raízes, a gostar de receber novos vizinhos; se, se, se…tantos “ses” para questionar o porquê do difícil caminho para o investimento e as dificuldades vivenciadas pelo investidor encontrarem uma barreira no seu caminho, travando o desenvolvimento rural. Burocracias, morosidade, vontades que vão criando como que entraves e um caminho sinuoso.

Inviabiliza-se a fixação, promove-se o despovoamento; descarta-se potencial riqueza…tudo ao avesso, num País com um meio natural que grita por ser vivido, que grita por investimentos neste âmbito, investimentos esses que têm o selo da garantia de sucesso.

 

Futebol: Jogo Coruchense x Mondenense | Fotos: João Dinis