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Susana Veiga Branco

Susanaveigabranco01Hoje passei, na auto-estrada, pelo veículo ou por um veículo igual – nem quis auferir, porque não é o que aqui interessa – ao que uma amiga minha conduzia. Já não o conduz. Já não conduz nenhum. Morreu.

Também faz um mês que morreu um colega meu.

Falo em morte, não em falecimento, porque a palavra morte parece-me mais profunda, mais final, mais dura, o que afinal ela é.

A minha amiga morreu cedo. Suportou muita dor antes de morrer, dor que deveria ser insuportável e que a definhou e reduziu, demasiada dor. Deixou uma filha da idade do meu filho. Fez dois anos que morreu. Fosse hoje e os sentimentos manter-se-iam: tristeza, vazio, perda, indignação e tantos outros.

Quanto ao meu colega, os jornais apelidaram-no de pessoa de trato fino e falaram da sua paixão por fotografia e do aficionado que era. Assim era de facto mas não chega, é demasiado redutor. Era muito mais. Também ele deixou família, também ele tinha uma filha ainda mais nova que a minha e com o mesmo nome da minha. Tinha uma alegria contagiante, mas o que mais me chamava a atenção era o abarcar a vida como se tivesse de ser de um trago, como se soubesse que a brincadeira da vida era com um pavio de vela, de consumo rápido. Assim terminou a sua vida, de forma rápida e com menos de 40 anos. Um dia disse-me: “Hoje a colega está com um brilho diferente, maior…não o via à algum tempo” e aquela frase ficou-me, muito antes da sua morte, acho que da forma como o disse, mais sério do que o costume. Observador e certeiro, pensei, mas qualquer coisa mais que me levou a pensar que devemos ter brilho sempre e não só às vezes, porque sem o sabermos nota-se, não se esconde e faz a diferença.

Estão ambos colados em mim, intrínsecos à minha vida, tal como outras mortes que foram ocorrendo ao longo da minha vida, o que nos leva a perguntar se se supera a morte. A minha resposta é não, não se supera a perda; intensifica-se a proximidade, o recordar, o valorizar. Será a natureza humana, dirão. Dirão também que na vida não há nada mais certo do que a morte, dirão que faz parte da vida. Tudo isso não sei, mas sei que junto com a matemática, o português, a geografia e todas as outras disciplinas que aprendemos na escola deveria existir uma disciplina que nos ensinasse e orientasse nem que fosse minimamente para as perdas e conflitos pelos quais vamos passando ao longo da vida. Ajuda profissional. Não faria desaparecer a dor, é certo, mas ajudaria a lidar de outra forma com ela.

De fato, quando alguém morre, ou melhor, quando alguém nos morre, qualquer afastamento ou distância se reduzem, em simultâneo da proximidade aumentar. Sentimos mais, face à impossibilidade de ter a pessoa “à mão”, recordamos o que nem nos lembrávamos de ter existido e transformamos esse pesar num “porque não fizemos, porque não fomos, porque não isto e aquilo”. Recordo-me claramente da última vez que vi a minha amiga de quem falo: num banco de aldeia, na ponta, no passar da Nossa Senhora de Fátima e por estranho ou inventado que possa parecer é que a realidade é que pensei: “Será a última vez que a vou ver?”, iminente que estava a sua partida, como que calendarizada. E na azáfama de ter a filha no carro com uns vizinhos a tomar conta, na confusão de tanta gente e da pressa para ir receber a imagem noutro lado, não fui ter com ela. É destes episódios que nos recordamos o resto da vida, mas que não teriam sequer lugar se não ocorresse a morte.

Nunca me assustei com a morte, nunca a temi, mas a morte que nos rodeia consome-nos e transforma-nos. A nossa cultura não lida nem nunca lidou bem com ela: nem a aceita nem se liberta. Acreditando-se ou não em que a morte não é o fim, o término da existência corporal afeta-nos de forma desmesurada.

 O ano passado estive para fazer uma formação com o tema de como lidar com a morte e com a dor. Não a fiz, talvez porque queremos remeter para tão longe estes temas que arranjamos sempre outras questões e azaferes substitutos. Não a fiz mas deveria ter feito e hei-de fazê-la, porque em questões de saberes e de morte, muito há sempre para fazer em vida…

XTerra Golegã - Fotos Carlos Simões