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Susana Veiga Branco

Susanaveigabranco01Fundada em 1980 por José Guilherme Paradiz, que lhe dedicou a vida, em conjunto com a sua família direta, a Rádio Pernes é agora propriedade da brasileira “Record FM”, que detém um conjunto de Rádios de norte a sul de Portugal.

Lembro-me hoje de algumas das muitas histórias que este homem pioneiro das emissões piratas em FM me contou, já passaram tantos anos; sempre gostou de se recordar como eram as emissões piratas que fazia quando era mais novo, histórias de quando estava em África, na guerra, histórias que ficam na mente e que na altura absorvi como se estivesse lá, a viver esses momentos, apaixonada que sempre fui e sou pela unicidade e apelo da Rádio.

Na altura em que ouvi essas histórias também conhecia outra história, dos meus vizinhos Paulo e Anabela, de outra Rádio que também teve o seu fim, a Rádio Piranha. Com o passar dos anos, a história das nossas Rádios locais alterou dramaticamente, ora terminando ora perdendo a sua identidade.

A Rádio Pernes não encerrou, mas para nós, que a vivemos de uma forma ou de outra, que nos habituámos a que fizesse parte das nossas vidas e que ouvíssemos uns ou outros programas, entrevistas e informação local terminou. Era para lá que ligávamos quando queríamos saber alguma dada notícia na hora ou quando queríamos dar uma informação.

Era muito jovem quando fiz informação na Rádio Pernes, nos estúdios de Santarém; quando propus e aceitaram uma grande reportagem com o tema da droga em Santarém e passei as férias grandes tão feliz e determinada a trabalhar nela (consigo ouvir o resultado mesmo agora, sem fechar os olhos, com edição de som do Pedro Paradiz); quando gravei publicidade de Natal que passava nas ruas do centro histórico scalabitano e que provocava muitos risos às amigas, irem comigo na rua e ouvirem-me duplamente; quando fazia diretos da Feira da Agricultura… Experiências entre outras que ficaram para a vida, que fazem parte de uma vida, a minha. Acabei por sair por não conciliar horários, para depois de muitos anos voltar com a minha crónica “Inclusivamente falando”, primeiro gravada, ora pela Dora Caetano, ora pelo Pedro Paradiz ora por mim e depois em direto no programa de Paulo Carvalho, “Via Direta”, já lá vão cerca de três anos; nem dei pelo tempo passar.

Ficam-me as saudades de abrir as janelas dos estúdios e olhar parte da cidade, do conceito no seu todo da Rádio e até do vento característico que se enrola debaixo do arco do partido comunista, onde nos vamos encontrando com outros colegas e entrevistados da Rádio e trocando meia dúzia de palavras, fica-me o elevador no qual nunca confiei e tantas vezes subi e desci a pé, fica-me a minha própria voz a entoar nos ouvidos, fica-me tanto…muito mais ficará ainda a tantas outras pessoas, é certo.

Agora terminaram os programas que fizeram a história desta Rádio, que por sua vez ficará na história, um ícone. Também ficou sem concretização a vontade de José Guilherme Paradiz de fazer um canal de televisão regional, o homem que tendo começado a trabalhar aos 14 anos de idade em electrónica nunca parou de fazer experiências e de inovar.

Muitas vezes verifiquei o que a Rádio Pernes significava para os seus ouvintes: uma companhia, minimizando a solidão de tantos, ajudando a passar ou esquecer horas de trabalho e problemas; para outros um modo divulgar, publicitando, os seus negócios e trabalho; para outras a possibilidade de reflexão. Muitos foram os ouvintes, muitos foram os artistas, muitos foram os colaboradores e muitos foram os entrevistados que por lá passaram.

Estão à porta as autárquicas; que estranho é não haver entrevistas nem debates na Rádio Pernes. Não vos parece?

Mas e agora? Muitas são sempre as possibilidades e alternativas, mas também ficará uma sensação de vazio, de algo que não é natural. Falta algo…

Adeus, Rádio Pernes... por tudo o que foste, o que representaste, o que permitiste. Foste algo de único, de muito positivo e diferente, acompanhaste muitos projetos de vida e muitas vidas, todos os acontecimentos da região, informaste, entreteste, emocionaste… Fica a minha humilde homenagem e o meu muito obrigada.

 

XTerra Golegã - Fotos Carlos Simões