chamusca appelgalego natal2017

Susana Veiga Branco

Susanaveigabranco01Gosto de Igrejas vazias, gosto do seu cheiro, de respirar a sua história, gosto de memórias que se perdem em tempos, que só vivem em pensamento.

Gosto da paz, da tranquilidade e do som que resta impregnado nas paredes das Igrejas.

Gosto especialmente de algumas Igrejas de Santarém, histórias de outros tempos que revivo e vejo “passar” como filmes.

Ora na catequese ora nas missas ora em baptizados, casamentos e funerais, as histórias colam-se a cada uma e perduram pela vida inteira.

Em Santarém tenho a Igreja da Piedade como a minha eleita, tantas foram as horas que lá passei em pequena, com a minha avó materna, tantas vezes fui ver o Sto António, nessa altura fechado em sala interna da Igreja. Tantas vezes fiz o peditório, num cestinho, tão contente que acho que a saltitar, pelo menos em pensamento, tantas vezes lá rezei e agora de vez em quando lá volto. Um desses dias aconteceu na terça feira passada, pela tardinha. Igreja totalmente vazia, O Sto António a olhar para mim, o cheiro a vela, madeira e conforto que me encantam, deliciam e descontraem sempre. Mudo em cada ida a esta Igreja, relativizo assuntos e respiro mais fundo, mais intenso.

Não posso deixar de mencionar a Igreja de Marvila, Igreja do meu baptismo e da minha filha, da minha 1ª Comunhão, dos belos azulejos e de missas de domingo.

Também não posso deixar de lado a Igreja da Misericórdia, tão cheia de harmonia, teatral e acolhedora, com o seu belo órgão restaurado, tão bom entrar e ficar por lá minutos que reparam a minha mente.

Já a Igreja do Milagre chega-me como infortúnio. Gosto tanto do local, tão perto de onde vivi uma vida quase que inteira, todos os dias lá passava e a olhava, muitas vezes a indiquei aos turistas, mas sempre ficará para mim o local onde se fizeram velórios de familiares e muitos outros, naquela salinha à esquerda, quando se entra. O resto parece que é esquecido. Ficou-me o cheiro a morte e intenso de coroas de flores. As escadinhas do Milagre contíguas, tantas vezes as subi e desci, para ir à Biblioteca, sempre optei mais por esse percurso do que a descida da estrada.

As missas à tarde na Igreja de Jesus Cristo, também as recordo, mas nunca amei verdadeiramente esta Igreja, embora tão bonita, não sei porquê, talvez a hora a que lá ía.

Quanto à Igreja de S. Nicolau, minha Igreja de catequese, histórias tantas, ora boas ora nem tanto; o melhor mesmo eram as missas aos domingos de manhã, com o Sr. Padre João, que já não está entre nós, mas que guardo em mim. Lá, muito rápido, com medo de me enganar, ouvia a minha voz de criança dizer “Meu Deus, porque sois tão bom, tenho muito pena de vos ter ofendido, ajudai-me a não tornar a pecar”, assim a correr e o Sr. Padre João a dizer-me “calma, respira!”. Dizia também que somos como árvores, que há que ir limpando os galhos secos, para os novos terem mais força. Também me ensinou a verificar os meus erros, numa espécie de auto confissão, o que transportei pela vida fora. A missa era a das crianças, com muita música e participação (e eu tão desafinada que mal abria a boca…ainda hoje…), tão sentida. Fui lá durante muitos anos e também por vezes ao final da tarde, mas não gostava dessas (muita ladainha e pouco sentimento, digo eu…).

Agora a Sé, a Sé é maravilhosa, imponente como nenhuma outra, mas não é para mim. Só ocasionalmente. Não faz parte da minha história. Gosto de lá ir, atualmente, no Dia de S. José, à celebração que a enche, antecedendo a Procissão.

Restam-me as Igrejas que fazem o meu presente, a Igreja de S. Vicente do Paúl e a Igreja de V. de Figueira. A primeira ficará como a da catequese dos meus filhos e respetivamente 1ª comunhão, a das missas de domingo que deveria ir mais mas só de vez em quando vou e o Sto, o S. Vicente, com o seu barco e as vestes em tons de vermelho, com ar afável. A de V. Figueira não me deixa concentrar e distrai-me, pois a sua talha dourada e os seus múltiplos painéis de azulejos são como um íman para os olhos. Pequena e riquíssima, com as suas portas de vidro à entrada que aquando de fechadas deixam vislumbrar o interior e ficamos pasmados. O S. domingos a tomar conta.

Mais do que um lugar, cidade e campo, Igrejas que também são um bocadinho minhas, algumas restauradas e mantidas de forma impecável, outras tão necessitadas de restauro, com rachas por onde entra a água teimosa das chuvas, a gritar por ajuda, mas todas elas um percurso, as Igrejas da minha história…

 

Futebol: Jogo Coruchense x Mondenense | Fotos: João Dinis