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Susana Veiga Branco

Susanaveigabranco01É Natal. É apelo ao sentimento. Posso ser sentimental hoje? Vamos lá, então.

Nesta época e sempre, procuramos a paz, aquela sensação única de tranquilidade em que flutuamos e nos automotivamos a melhorar. Aquela questão da melhoria constante, sempre pertinente, sempre presente.

Vamos então melhorar? Será que já estou a descambar para outro tom? Talvez… Vamos esquecer a loucura das correrias da época natalícia, vamos olhar com olhos de ver para os presépios e iluminações que tornam as nossas terras e as nossas casas mais convidativas e acolhedoras? Deixando de lado tanta azáfama de comprar (o comércio que me desculpe; não estou a dizer para não comprarem, estou a dizer para deixarem as correrias), deixando de fazer algo só porque é obrigação e deixando de facto entrar em nós a tal magia.

Quando acontece é realmente mágico e belo, porque é como que se entrássemos numa cápsula do tempo e vivêssemos num livro de histórias de crianças. E chegando às crianças, que bom é ver as minhas a preparar os seus embrulhos, a oferecer objetos próprios que têm um valor especial (curioso curioso é até o gato ter dois presentes com um belo laçarote – e assim se vão as fitas de cetim da mãe!).

Natal deve ser uma coleta de momentos, fotografias também mentais que mais tarde se recordam, sim, mas que no presente nos deixam bocas recortadas de sorrisos e olhos brilhantes de emoções múltiplas. Mas não existe um botão que se prime e acende em nós esta magia, este chamado espírito.

É pena, muita pena, mas não é fácil. No entanto, para mim, funciona do seguinte modo: sento-me e observo, de fora para dentro, como se tudo fosse um filme à minha volta. Não existo, existe o espaço. Observo. Muitas vezes nada acontece, outras acontece tudo. E continua-se a observar. Absorvem-se as cores, os objetos, os pedaços de vida que teimam em nos abraçar e maravilhar.

E eis que começa. Uma mãe a gritar com a sua criança (desta vez não sou eu) e ela a chorar e quebra tudo…mas pronto, já passou. Vem o cheiro a pinhas a arder na lareira e a castanha assada e sem dar por isso já não sou observadora mas protagonista. Lá vem o doce prazer de comer uma filhós e bebericar café de avó, vem um gorro quentinho e um capote, vêm as festas da escola e os chocolates que se penduram um dia na árvore de Natal e no seguinte já não estão lá (mas se já a minha avó fazia eu continuo a tradição, com reposição incluída); olha, está a minha mãe a ligar para saber quais os ingredientes para os doces de Natal e a dizer “Não te esqueças da minha mousse de chocolate e para o pai o salame!”, outra voz “Para mim quero uma tarte de amêndoa” e “Para mim fios de ovos”. Quanto a mim, provo tudo.

A rafeira alentejana não vai nessas ondas, mas o gato até os bróculos quer provar e quando olho para o lado já está no topo da árvore a sacar os enfeites…Confusão que se vê, cheira e sobretudo sente, mas confusão boa, de casa e da alma, de família e conforto.

Vamos passear no Natal, sim, sem pressas, e esperar que o tal botão ligue e nos apaixonemos novamente pelo palpitar da vida…

Que sorte fantástica a de quem tem tudo isto, mas não consigo deixar de pensar em quem não tem um lugar quentinho e uma chávena fumegante na mão e uma refeição, uma família e felicidade a encher o coração…para vós e para todos um abraço bem apertado, daqueles que nos deixam um brilho nos olhos.

Um santo e feliz Natal, queridos leitores!

Boas Festas!

Balonismo em Coruche - Fotos João Dinis