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Mário Santiago

mario santiagoExistem duas expressões amplamente utilizadas no léxico das finanças corporativas:

CEO – É o gestor executivo de uma empresa e que tem como principal missão, a criação de valor. Nos CTT, chama-se Francisco Lacerda.

Dividendo – É a parte dos lucros de uma empresa que é distribuída pelos acionistas. Nos CTT, é uma aberração matematicamente possível, mas já lá vamos…

Tenho acompanhado com interesse, as notícias sobre os CTT desde a sua privatização, até porque acredito que seja uma das empresas cotadas no PSI-20 com maiores desafios à sua estratégia de criação de valor. Afinal, existem profundas e incontornáveis transformações no serviço postal e a empresa posicionou-se no mercado da industria financeira (Banco CTT) de forma pouco ortodoxa face à banca contemporânea. É por isso mesmo, um grande desafio aos gestores desta empresa e que me suscita particular curiosidade.

Por outro lado, não concordo com as criticas que os CTT têm recebido por parte de alguns agentes políticos relativamente à decisão de encerramento de várias estações de correios. Se existem decisores políticos (centrais e locais) que não sabem promover a ancoragem de empresas e residentes nos territórios que administram, como podem vir agora contestar a decisão das empresas de encerrarem estruturas nesses mesmos territórios consequência da crescente escassez de clientes?

Lamento emitir esta opinião em contraciclo mediático, mas é emitida na exclusiva assunção dos CTT serem uma empresa privada. E já agora, aproveito para relembrar que a privatização dos CTT foi um compromisso do governo PS, estando inscrita no memorando de entendimento da Troika.

Estou, sim, muito mais preocupado com a capacidade dos agentes locais (privados) se substituírem aos CTT, garantindo no mínimo a mesma qualidade de serviços que os CTT prestavam às populações. Conseguindo esse objetivo, ganham os utentes/clientes desses serviços, ganham os comerciantes da terra, ganham as autarquias que cobrarão imposto de derrama municipal que não cobrariam se os lucros tivessem sido gerados na esfera jurídica dos CTT, e ganham também os CTT ao eliminarem estruturas potencialmente deficitárias e destruidoras de valor da empresa. Tenho por isso uma única reserva de opinião, dependente da destreza empresarial e continuidade da atividade prestada por esses privados.

Voltemos então aos Dividendos, e aos motivos que me levaram a escrever as primeiras frases desta coluna de opinião:

Podemos assumir que a politica de dividendos é um instrumento de capitalização de uma empresa. De forma simplista, a parte dos lucros que não é distribuída aos acionistas, será, em principio, reinvestida no financiamento da atividade empresarial e na consequente criação de valor.

Pelo 2º ano consecutivo, os CTT irão ‘distribuir’ mais lucros aos seus acionistas do que aqueles que geraram. Parece estranho, mas é assim mesmo: Por cada euro de lucro que a empresa obteve em 2017, irá pagar mais de 2 euros aos acionistas. E se do ponto de vista puramente matemático, a parte de um todo não poderá ser superior a esse todo, já no mundo financeiro como ciência imperfeita designa-se esta prática como destruição de valor.

A aberração só se completa quando se conclui que o dividend yield (divisor do valor do dividendo pelo preço da ação) é de 12%, portanto acima de qualquer investimento mais ou menos tradicional ao dispor do comum dos mortais. Costuma-se dizer que quando a esmola é muita, o pobre desconfia. Este recado poderia ser apenas para os acionistas, mas na verdade não é. É para todos nós, contribuintes:

- Francisco Lacerda afirma que "os CTT têm uma estrutura financeira sólida, não se endividam para pagar dividendos”. Só não referiu que essa solidez foi obtida antes da privatização, quando eram os contribuintes a beneficiarem da boa saúde das empresas públicas, que por sinal até era coisa rara, para que agora essas reservas de valor sejam desbaratadas a favor dos acionistas. E se a intenção foi de minimizar a desvalorização de 36% no valor das ações dos últimos 12 meses, foi pior a emenda que o soneto.

Francisco Lacerda, pela forma hábil como se tem posto a jeito de ‘levar pancada’ de todas as bandas, corre o risco de ficar na história da empresa pelas piores razões. Para quem foi nomeado para uma missão de criação de valor, será difícil contrariar a tese da destruição de valor dos CTT…

Simulacro da Proteção Civil no Entroncamento - Fotos: José Neves