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José Carlos Antas

jose carlos antasNos dias de hoje a sociedade é cada vez mais individualista. Sente-se isso nas mais simples rotinas. Olhos nos smartphones ou em livros, auriculares para ouvir música e pouca conversa, apenas o indispensável para conviver socialmente “ao vivo”. As tecnologias aproximaram as pessoas virtualmente, mas afastaram-nas fisicamente. As redes sociais mantêm o contacto através de fotos, notícias e comentários (concordantes ou discordantes), mas através de um ecrã que se desliga e que nos deixa sós com o seu fundo preto. Isto leva, muitas vezes, o individuo a fechar-se em si próprio, na sua vida rotineira onde contacta com a família, os colegas e pouco mais, e a ter uma visão muito afunilada das questões que o envolvem.

Naturalmente, as pessoas pensam nos seus objetivos, no seu bem-estar e na sua satisfação pessoal. Um pensamento individualista que é importante e que todos devemos ter, mas que deve ser complementado.

Assim, quando alguém surge com uma bandeira para defender o seu grupo, com vontade de dar a cara, fazer sacrifício pela sua associação cívica, classe profissional, local onde vive, partido político, etc., deve ser valorizado porque pensa nos seus, defende-os vigorosamente nas suas ideias e atividades. Este pensamento coletivo é algo mais abrangente, requer disponibilidade e desgaste por parte daqueles que assumem estas responsabilidades porque saem da sua esfera pessoal e o seu esforço deve ser reconhecido. Todavia, também pode limitado na sua visão, pois raramente tem uma perspetiva de toda a envolvente. Por exemplo (sem querer particularizar ninguém, mas apenas para exemplificar e refletir), será que quem defende os professores pensa numa perspetiva global do Ensino e os seus objetivos são benéficos para todos os agentes envolvidos? Os representantes dos enfermeiros e dos médicos em relação à Saúde? Os funcionários públicos em relação à administração do Estado? Os partidos políticos em relação ao que o país verdadeiramente necessita? Ou defendem apenas os interesses e a perspetiva do grupo que representam? Será que estamos perante uma espécie de “individualismo coletivo”?

Na minha opinião, o pensamento coletivo pode cometer o erro de cingir a realidade ao meio que o grupo domina e conhece, deixando para segundo plano as periferias da sua área de atuação. Se a visão coletivista for redutora, implica um fecho em si mesmo nas medidas vantajosas para o grupo, pretendendo fazer dele uma roda dentada bem oleada e funcional. Todavia uma roda dentada bem oleada fica emperrada quando se tenta encaixar nas outras enferrujadas que o tal coletivo pode ter deixado para trás, quer por negligência, esquecimento ou prioridade e, deste modo, a máquina pára, incapaz de servir os seus propósitos, a sua missão. Algo que é prejudicial para todos, inclusive para o grupo a longo prazo, porque não pensou no “global”.

Difícil é o pensamento global. Ter uma perspetiva de tudo o que nos envolve e das consequências de cada ação. Saber relacionar e antecipar as causas e os efeitos das ações, e prever o impacto nos que connosco interagem. Normalmente, isto é difícil de conseguir, pois implica mais trabalho e necessita de uma visão a longo prazo sem pretender vantagens imediatas para si e para os seus, mas sim para todo um mecanismo para que funcione bem e que sirva melhor a sociedade.

Também na nossa esfera particular (pessoal, laboral, social) devemos pensar global nas nossas atitudes e ações, procurando estar no lugar dos outros, entender as perspetivas, antecipar as consequências e conciliar o que poderá ser melhor para todos.

É certo que requer um pouco mais de esforço e tolerância, mas deverá valer a pena.

 

Partida em Coruche do Grande Prémio de Ciclismo Abimota - Fotos: João Dinis